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A Maldade está nos olhos de quem lê?
Wednesday 05/09/2012 às 07:01 2338 Views Arquivado em: Literatura e Blá Blá Blá

Pois é, “50 Tons de Cinza” vendeu centenas de milhares de livros em menos de um mês no Brasil, segundo a editora. E depois de resultados tão expressivos, é de nos perguntarmos: o que afinal o público está procurando?

Bom, anjos e vampiros parece que não é mais. Com 25 milhões de leitores em todo o mundo, a trilogia de E. L. James foi originalmente lançada por uma obscura editora australiana em e-book, mas foi descoberta pelo grande mercado depois. E deu no que deu. Como não li “Crepúsculo” – mas me parece que “50 tons de cinza” nasceu de uma fanfic dos vampiros cintilantes de Meyer – nem o próprio livro, fica difícil eu comentar da obra em si. Mas dá pra conversarmos de outra coisa: a sacanagem que rola no livro.

Ora, praticamente todo mundo gosta de sexo – do contrário, não seríamos 7 bilhões de seres humanos no planeta – e de tempos em tempos, a literatura é sacudida por um fenômeno erótico. Grandes clássicos da literatura têm cargas altas de erotismo, e servem de referência pra muita coisa até hoje. Não acho que “50 tons de cinza” vá ser um “Lolita” dos nossos tempos, não mesmo. Vivemos anos onde o sexo é mais acessível ao vivo e em várias mídias e portanto, mais banal do que nunca. Então fica complicado nascer um Nelson Rodrigues entre nós. Mas a questão da literatura despertar tanto interesse quando mete erotismo no meio, é sim algo relevante. Em especial, dentro dessa sociedade, como eu disse, já tão erotizada. É bom lembrar, livro não tem censura. Qualquer moleque podia chegar numa livraria dez anos atrás e comprar “100 escovadas antes de ir para a cama“. Foi assim com “O doce veneno do escorpião” tempos depois e está sendo, com certeza, semelhante, com “50 tons de cinza“. Então, será que o legado dessas obras é atrair novos leitores para a ficção? Tem muita gente boa do mercado que acha que sim.

Acho que atrair novos leitores, nesse caso específico, é mero efeito colateral – e de eficácia duvidosa. A ideia, pelo menos por parte dos investidores, é vender, e vender muito. Marketing bem feito – e originalmente a coluna de hoje seria sobre isso, mas mudei por sugestão da Priscila – e uma obra que atiça os sentidos é receita quase infalível. Não soa tão nobre quanto divulgar John Green – também belamente lançado pela Intrínseca por aqui – mas tem lá seus méritos. Uma coisa, inegável, é que todo mundo gosta de cenas picantes, eu mesmo reparo isso nos meus livros, que têm sido, pelo menos até aqui, bastante comedidos no quesito. Embora esparsas e comportadas, as cenas mais quentes dos meus livros sempre agradam. E claro, há que tomar-se cuidado extra, afinal, livro não tem censura.

E assim vamos, nas ficções eróticas assim como nos demais romances, vivendo no conforto e segurança dos livros, muitas das coisas que não podemos, não devemos, ou muitas vezes, nem queremos viver na vida real. Ou queremos?

Beijos e até a próxima!




Sobre o autor do post:

Enderson Rafael nasceu em Florianópolis, em 1980. Escreveu seu primeiro romance, aos 19 anos. Formou-se bacharel em Comunicação (Publicidade e Propaganda) pela ESPM-Rio, escola que em 2006 apoiou a publicação de seu segundo livro "Propaganda e Marketing para vestibulandos, calouros, curiosos e simpatizantes". Neste meio tempo, escreveu dois roteiros de longa metragem para cinema, "Geribá" e "Mil Mares". Em 2010, lançou seu primeiro romance, "Todas as estrelas do céu" e agora trabalha como comissário de voo, profissão na qual já soma 5 mil horas de voo e que inspirou seu segundo romance, a ser lançado em 2012, "Três Céus" pela editora Gutenberg.
E-mail: endeblog@gmail.com



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