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Entrelinhas #1 – Da realidade das coisas
Wednesday 16/02/2011 às 09:47 1280 Views Arquivado em: Entrelinhas

Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado

(Fernando Pessoa)

A primeira vez que li esta afirmação fiquei espantado. Primeiramente, por não ser uma afirmação em si e sim uma constatação, em seguida por captar o seu sentido – coisa que me fez enxergar o quanto é óbvio o que ele diz – e por fim, e não menos importante, por trazer-me algo há muito perdido.
O que Pessoa diz nesta frase é bem simples: se penetrarmos na realidade das coisas irreversivelmente deixaremos de senti-las. As coisas, por si só, são sensações imaginadas e projetadas por nós e vê-las como realmente são desfaria essa miragem deixando-as nulas. E o que isso tem com literatura? Vejamos.
Em literatura tudo converge para o sentido de sentir. Quando abrimos um livro estamos assentindo em viver um desdobramento de sonho, um sonho dentro de um sonho; algo que beira o absurdo do ilusório, mas que tem sua função primordial justificada.
Esse mundo irreal que é moldado com miríades de palavras tem como pilar central apenas uma coisa: o sonho. Esta matéria – chame-mo-lá assim -, não existe apenas ao dormirmos; ela está presente mesmo estando acordados. Contudo, muitos afirmam, quando terminam determinada obra, que a compreenderam-na, que são aptos a falar sobre ela e usar de sua eloquência para explicar aos mais desatentos o que o autor disse. Mas não é bem assim.
Este entendimento ao qual nos agarramos com tanta veemência ao terminar um livro não é nada mais do que o “sentir demasiado”. De fato, não há uma compreensão ali, pois se houver, se aconteceu por um descuido do sonho despertar dentro do sonho e vir à realidade; se por algum motivo que nos escapa nossos olhos penetrarem na realidade daquilo que se lê, então o livro será anulado e toda sua beleza e fantasia sumirão. Pode parecer ruim, mas não o é, tampouco bom.
Quando abrimos um livro nos comprometemos a acreditar nele mesmo que discordemos do autor. Pode parecer paradoxal, mas nós somos paradoxos sobre duas pernas.
Um livro é um portal onde conseguimos suprimir uma carência que este sonho ao qual chamamos realidade não nos dá. Esta carência, em verdade, é antes uma exigência íntima do que uma necessidade intrínseca. Chamem-na “controle”.
Ao lermos, sentimos – mesmo de forma disfarçada -, que temos controle sobre o que se passa. Podemos parar de ler a hora que bem entendermos e adiar a morte do herói; podemos mesmo pular dois capítulos por acharmos entediante ou quem sabe apressar a leitura para vermos o tão desejado final feliz. Eis o controle. Disfarçado em várias sensações, amalgamado em centenas de formas de justificativas externas, mas lá no fundo, quando penetramos nele sua realidade se mostra pura e simples.
Contudo, se abrimos um livro e procurarmos vê-lo de forma lúcida (e quando dizemos “lúcida” não é um entendimento puramente racional), se ao lê-lo penetrarmos em sua realidade intrínseca, se margearmos suas entrelinhas aí então prejudicaremos sua função primordial que é o “sentir demasiado”. Ler não é nada mais do que concordar em sentir demasiado; sentir em demasia é assentir em não compreender a realidade das coisas tal como elas são.
Quando se vê muito lucidamente, aquilo torna-se um pedaço de nós mesmos, torna-se nossa natureza, dá-nos clareza e traz-nos uma lembrança de que estamos a sonhar de olhos abertos. Quando sentimos com profundidade estamos apenas sentindo com profundidade, mas é meramente um devaneio, um sonho que se sente de si próprio ausente.
É assim que chegamos numa questão: compreender na totalidade uma obra ou ignorar suas entrelinhas para que possamos senti-la. Seja lá o que for escolhido, está feito, e quando feito não poderá ser revogado.
Peguem agora esta constatação de Fernando Pessoa e apliquem-na em todos os âmbitos possíveis e compreenderão meu espanto. E quando penetrarem na realidade do que ele disse,mesmo sua afirmação será nula e perderá o sentido sobrando apenas o que todo livro por natureza é: um amontoado de palavras sem sentido de sentir.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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