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Entrelinhas #2 – Escrever ou não escrever? Eis a questão.
Wednesday 02/03/2011 às 07:00 1146 Views Arquivado em: Entrelinhas

Certamente podemos utilizar o célebre questionamento de Shakespeare em tudo. Em Hamlet, Shakespeare questionou o “ser”, aqui questionamos o “escrever”. Falemos de forma breve sobre isso.

Muitos são os que escrevem em nosso tempo. Poucos, contudo, escrevem de fato. Escrever, como suprema arte que é, não se trata apenas de rascunhar miríades de palavras insossas, postas lado a lado num continuum tedioso e sem sentido. O que vejo saltando aos olhos nas livrarias atuais são compêndios horríveis de palavras mal tratadas, usadas de forma leviana e sem amor, numa mistura cruel entre a vaidade de ser escritor e o desejo póstumo de ser reconhecido; o que dá no mesmo. Obviamente, temos lá nossas exceções, mas confesso que me escapam qualquer nome agora.

O escritor não precisa ter idade avançada, altura avantajada, ser bonito ou falar bem, tampouco ser sério e rabugento, ou mesmo letrado em demasia. Não. Isso pouco importa. O escritor, antes de tudo, deve ter a natureza do escritor; deve investigar-se para conhecer-se a si próprio e assim compreender o resto por conseguinte tendo a capacidade lúcida de expressar a realidade das coisas em palavras. Nesta investigação, quando feita com sobriedade de espírito, há de se usar o questionamento de Hamlet, alterando-o ao contexto: Escrever ou não escrever? Eis a questão. Pois se escrevem, parece que pecam, se não escrevem, parece que erram. E tudo continua na mesma.

Rilke dizia que ao penetrarmos em nós mesmos e descobrirmos sermos naturalmente escritores, ainda há um ponto chave para completar o enigma proposto.
Este ponto, simples em sua composição, mas terrível quando não constatado, sugere que tenhamos plena consciência de que faríamos tudo para continuar a escrever, que trocaríamos tudo por esta arte solitária, que engoliríamos o mundo para não sermos impedidos de contar uma história, que recusaríamos qualquer tesouro para que a escrita não nos fosse tirada. Eis o ponto: levante o dedo aquele que abriria mão da eternidade para continuar a escrever por mais cinqüenta anos. Pois bem. Em “Os Fastos” de Horácio e Ovídio, há uma crítica a um texto de Lúcio, onde Horácio o instrui de forma clara sobre o “escrever ou não escrever” dizendo-lhe de sua capacidade nata, mas que ela é mal empregada por não ter consciência de si mesmo. Assim, preguemos Lúcio na cruz e usemo-lo como exemplo para a maioria dos que vemos escrever hoje em dia. Muitos deles têm a potencialidade em si, mas são preguiçosos; vê-se que têm capacidade, mas não sabem usá-la; alguns são letrados, mas não compreendem o que dizem perdendo-se em suas linhas de raciocínio básico; outros são pouco letrados, deixando seus textos pálidos; há aqueles que sequer leram os grandes mestres e tentam escrever; outros ainda leram demais e não os compreendem ficando assim impregnado e palavrosos; e para não nos estendermos muito – pois a lista é longa -, há aqueles que escrevem por vaidade.

Estes últimos são a maior praga do mundo literário, e como cânceres invadem as prateleiras tornando os leitores pessoas grotescas por não saberem mais o que é boa literatura. Muitos erguer-se-ão em protesto ao que dizemos, argumentando, deveras, que não há forma de se escrever sem ter como meta a publicação. Os leitores defenderão que lêem boa literatura; os escritores dirão que a escrevem. Contudo, antes que se levantem com os dedos eretos e fúria nos lábios, lembre-se que a arte, seja ela qual for, tem como fim ela mesma. Isso quer dizer que se alguém escreve é por necessidade, por ter uma potência em si que o impele a escrever de forma desesperada; e ainda assim – vejam bem, senhores -, mesmo esta força engolindo-o, há um caminho árduo e um preço a ser pago que é mais alto que os picos do mundo.

Do contrário, toda e qualquer criatura pode considerar-se escritor, mesmo sendo ela asno, pois dizer asneiras não é uma faculdade humana, mas uma imitação ridícula do atual escritor e sua capacidade espantosa de dizer nada em 500 páginas. Escrever ou não escrever? Eis a questão, senhores.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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