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Entrelinhas #4 – Capas: o desvirtuamento da literatura?
Wednesday 16/03/2011 às 17:16 1072 Views Arquivado em: Entrelinhas


Muito me apraz passar de fronte uma livraria e olhar as capas cheias de penduricalhos que lá se encontram. Contudo, meu prazer é meramente momentâneo, posto que estas capas raramente cobrem um bom livro.
Um aspecto curioso de nosso tempo literário – refiro-me, obviamente, aos séculos XX e XXI -, é o fato de os livros conterem mais substrato em suas capas do que em seus interiores. Duplo contra-senso, pois a inversão disso é que deveria ser aplicada severamente pelos escritores.
Certa vez cruzei com um livro numa estante de livraria. Fiquei absolutamente interessado na obra, mas todo este interesse fora movido pela ilustração assombrosa que ele carregava em sua face. Passei um bom tempo namorando o tal livro de uma série de sete volumes e todos eles com magníficas ilustrações de capa. Então comprei-o para meu desgosto. O autor, um americano incapacitado de senso auto-crítico, construiu um circo invejável de macaquices horríveis que se estendem por longos volumes palavrosos e sem sentido. Um conversa fiada absurda assolou minha percepção ao ler semelhante coisa e percebi que havia caído no truque mais antigo do mundo: comprar a aparência de uma coisa sem saber de seu interior.
Observemos o que digo: quantos livros vocês, leitores, conhecem ou leram em suas vidas que possuem capas neutras ou capa alguma? Até mesmo as novas traduções dos clássicos literários – medonhas, diga-se de passagem -, foram colocadas com ótimas e suntuosas capas. Entretanto, em literatura moderna, se lermos atentos as obras de belas faces, são em geral um insulto a arte que se dizem pertencer.
Um sujeito, certa vez, disse-me que não adquiria ou lia obras que não trouxessem uma capa interessante. Olhei-o espantado, pois como diabos alguém pode simplesmente obter determinada obra simplesmente por aparência? Obviamente, como toda regra – fora a morte -, existem algumas exceções neste aspecto ao qual apontamos com tanta veemência, mas estas exceções por si só se sustentam e não precisamos sita-las aqui. Já no outro extremo, temos miríades destas obras em series que costumam ter capas lindas.
O lado bom desta bestial forma de livro, é que os ilustradores são valorizados e trabalham com gosto, mostrando todo o seu potencial. Por este lado, ergo-me e aplaudo, mas pelo lado importante, chuto. Tenho muitos livros em minha estante que sequer possuem capas, mas em seus interiores são obras primas. Outros têm capas maravilhosas, mas só servem para peso de papel. Que querem que eu diga? Apenas constato um fato, e que os fãs fervorosos dessa horrível nova literatura baseada em estética me perdoem.
Não há muito mais o que dizer sobre isso, mas o que importa não é a extensão do que é dito e sim sua natureza. Não culpo as capas pelos livros ruins que carregam, apenas constato que elas enganam o leitor e o condiciona a usar este discernimento para avaliar o que lê. Um livro não é feito pela capa, e sim pelo talento e labuta daquele que escreve. Muitas vezes a capa pode matar uma obra ou elevá-la ao topo sem que ela tenha mérito para tal; e como de costume, cabe ao leitor permitir que isso ocorra.
Assim, o velho jargão “não julgueis um livro pela capa” pode e deve ser aplicado em duplo sentido: capa boa não é sinônimo de livro bom e vice-versa. Se conseguirmos chegar ao ponto de uma obra conter uma ilustração do nível das de Ted Nashmith com o conteúdo de Sthendal, estaremos então no Éden literário, mas até lá teremos de desmontar a raça humana e sua medíocre mania de prezar a estética acima de tudo.



Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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