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Entrelinhas #5 – A incapacidade Que Gera Incapazes
Wednesday 23/03/2011 às 08:58 1110 Views Arquivado em: Entrelinhas

Já ouvi muitas vezes, e com certa reticência, falarem sobre estilos de escrita. Confesso que sempre observo atentamente aqueles que debatem o assunto, pois é realmente cômico. Correndo o risco de ser exato, conheço uma ou duas exceções de livros que tratam sobre prosa e estilo que valham a pena serem lidos; os demais foram extensivamente feitos por pessoas inaptas que não sabem escrever. Curiosamente, o assunto parece atrair a atenção severa de professores universitários com ares bucólicos, pseudo-literatos, filósofos de boteco e uma dúzia de outros sujeitos palavrosos que não cabem aqui neste breve comentário. Como se não bastasse despejarem lixo diário nas mentes de jovens aspirantes ao mundo literário, ainda os forçam a compreender suas idéias pomposas e cheias de penduricalhos horrendos e, irreversivelmente, distorcem a coisa toda a seu bel-prazer. Mas isso não é de agora, não é uma novidade de nossa época, apesar de em nosso tempo as coisas estarem de mal a pior neste meio. Naturalmente, desde muito existe este tipo de gente que têm por intuito reduzir o Estilo a uma série de regras ridículas – uma paixão antiga desta classe, em todas as épocas, achando que estilo de escrita pode ser ensinado, assim como se ensina alguém a fazer café e ferver leite. Evidentemente, seu fracasso é tão colossal quanto seu intento, já que deste ventre só saem falsos escritores que levarão adiante essa horrível arte de fingir escrever.
Certa vez assisti a palestra de um escritor nacional. Sentei-me e ouvi por cerca de uma hora este sujeito balbuciar asneiras como se dominasse de fato o assunto. O interessante é que enquanto ele macaqueava e se vangloriava de seus feitos épicos literários, esquecia que seu livro era uma piada. O público, em toda sua santa ignorância, ainda o aplaudiu ao final! Há quem goste, mas mau gosto é um dos maiores mistérios da humanidade.
Primeiramente, é básico saber que não se reduz o Estilo a regras. Ele é algo vivo, que respira e caminha, que se alimenta, se banha e precisa de descanso. O Estilo é um com o escritor, e usa a mesma pele que a dele. Isso é um aspecto real e pode ser constatado. Quando o escritor endurece, seu estilo mostra isso; se está feliz, sua prosa será pueril; quando triste haverá mais reflexão e sobriedade; se muito jovem será extravagante e sendo ele velho haverá experiências interessantes. O Estilo muda conforme o interior daquele que o carrega, e seria estranho se não fosse assim. Por isso, tentar ensinar esta arte a alguém é tolice.
Mas a justificativa dos pretensos professores que reduzem o Estilo a moldes é baseada numa inferência errada de uma observação concreta. Observa-se que a maioria dos aspirantes a escrita não consegue expressar um mínimo de idéias no papel. Seu pensamento é confuso, logo sua escrita também é. A inferência errada é a de que suas mentes devem ser treinadas para adquirir clareza, e isso é feito da mesma forma como se ensina um cão a dar a pata para o dono. Ora, o que eles não percebem é que se os guris não pensam com clareza demonstra apenas imaturidade e inexperiência, coisa que, cá entre nós, pode ser transcendida de forma mais elegante apenas lendo livros bons e respirando ar puro fora da sala de aula. Mas os professores letrados não se interessam em esclarecer os aspirantes e sim em moldá-los ao estilo hediondo que eles mesmos criam dia a dia; um estilo opaco, oco e massivo que oprime mesmo o mais talentoso gênio. Seus livros são didáticos, pueris e estranhamente infantis, e em sua retórica está refletido toda sua incapacidade sobre escrita. A coisa ainda vai mais longe. A maioria dos professores de prosa não sabe nada de poesia, assim como pouquíssimos professores de poesia têm qualquer interesse pelas belezas da prosa (conheço professores de poesia que jamais leram Rainer Maria Rilke). Já os teatrólogos ainda não foram informados da existência nem de uma e nem de outra.
Isso é realmente ultrajante. A maioria das pessoas que se aventura neste vale sombrio e duvidoso chamado escrita não têm base literária. Como preguiçosos que são, tratam de correr para palestras, cursos, aulas e uma dezena de artifícios que os tornam ainda mais imbecis quando o assunto é literatura. Digo isso, pois aqueles que os ensinam já são naturalmente incapazes, e ainda tentam ajudar os outros? Haverá apenas um jorrar de besteiras largamente aplaudidas e aceitas, e no final a única coisa que estes professores podem fazer é formá-los PhDs em mandá-los escrever livros sobre estilo.
No mais, tudo é tratado na maior normalidade.



Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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