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Entrelinhas #6 – O Artista Genial e o Artista Bem-Sucedido
Wednesday 30/03/2011 às 09:00 1691 Views Arquivado em: Entrelinhas

Há um consenso geral de que se um sujeito é genial logo será bem-sucedido, mas não é bem assim. No mundo das artes existe uma diferença tremendamente vasta entre ser gênio e ser bem-sucedido. Mas o que define isso é o ponto ao qual trataremos de forma breve aqui. Atenhamo-nos ao assunto então.
Existe uma máxima romana que diz: “De mortuis nil nisi bonum“, que, literalmente, quer dizer “Dos mortos só se diz o bem”. Isso pode ser aplicado ao ramo das Grandes Artes, pois em sua maioria o gênio é reconhecido depois de morto. Machado de Assis disse – usando um de seus personagens para dizê-lo -, que “Está morto, podemos elogiá-lo”, e isso é de uma sagacidade considerável e deve ser entendido em sua totalidade.
Geralmente o gênio incomoda a sociedade. Falando apenas da arte escrita, os grandes gênios da literatura comprometem-se em prestar um determinado tipo de serviço para o espírito humano. Esta prestação de serviço varia de um sujeito para outro, tendo cada um deles um foco e uma forma de tratar determinados assuntos, indo desde contos de fadas até obras escritas apenas como análises. Alguns são mais pungentes e linguarudos, outros mais reservados e suaves; há aqueles que constroem tudo em rimas belíssimas e daquele lado podemos observar os que escrevem grandes volumes sobre o pensamento humano. Contudo, se olharmos do alto, todos eles tem o mesmo cunho crítico-social, ou seja, apontam as lambanças feitas pela sociedade em todas as épocas. Assim, estes gênios combatem as inúmeras vergonhas sociais, usando de seus dedos flamejantes para mostrar-nos o mundo tal como ele é. Mas, para o infortúnio de nossa consciência, a grande maioria destes notórios escritores – mesmo consagrados -, ainda são negligenciados, pois ainda hoje o que eles constatam é atual e, sendo assim, perigoso. É muito raro que um gênio seja reconhecido enquanto vivo, pois o sistema jamais apoiaria justamente aquele que lhe puxa o tapete. Então, quando morto, podemos elogiá-lo, já que agora ele é inofensivo.
É evidente que alguns destes senhores foram reconhecidos em seu tempo, mas culturalmente falando, até o meio onde viviam era favorável. Contudo, quando o gênio vinha revolucionando muito em uma determinada arte – Beethoven e sua Heróica, por exemplo -, era imediatamente repudiado e lançado aos lobos, mesmo todos os carrascos tendo plena consciência da capacidade do pretenso réu. Imaginem os rostos contorcidos de horror dos vienenses ao ouvir tal peça pela primeira vez. Um tremendo choque, naturalmente, e os redatores do programa camuflaram a obra com tantas camadas de especulações banais que seus méritos intrínsecos quase foram esquecidos.
Mas e os bem-sucedidos? Bom, eles têm seus méritos, mesmo sendo irrelevantes e pueris. Nietzsche dizia que todo artista bem-sucedido é, por natureza, corrupto. Isso quer dizer que para se subir ao pódio mais alto enquanto vivo, há de se vender a si próprio. De uma forma ou de outra, se o escritor tem uma certa inclinação ao sucesso, fracassará enquanto artista e será reconhecido. Deixando os nossos gostos de lado e avaliando de forma impessoal um determinado artista bem-sucedido constataremos a verdade que este alemão intolerável diz. Quantos escritores geniais conhecemos hoje em dia? Quantos escritores bem-sucedidos conhecemos hoje em dia? Ambas as respostas são óbvias, e que os adorares nos perdoem, mas os gênios continuam escondidos, enquanto os bem-sucedidos alçam vôo – merecido, por certo -, e invadem todas as prateleiras das hediondas livrarias que possuímos.
Em dicionário, o termo “gênio” é definido como “alguém de grande capacidade mental criadora”, mas apressamo-nos em corrigir nosso amigo Aurélio, pois certamente não compreendeu de fato o que isso significa. Capacidade mental criadora é um atributo muitas vezes banal, pois até mesmo macacos criam de forma interessante e com admirável capacidade. Contudo, o gênio usa outros artifícios para fazer de sua obra o que é; e seja em qual área ele atue, quando tem essa penetração gera de forma assombrosa algo que estremece todo e qualquer pilar; e não estamos falando de Thomas Edson, pois sua conversa palavrosa aumentou consideravelmente o número de aborrecimentos ao qual já tínhamos direito.
Estar no topo e ser reconhecido não são sinônimos de genialidade. O primeiro sintoma de que nos deparamos com um gênio é sua total indiferença ao sucesso. Galgar os muros da expressão verdadeira da arte exige um desapego tremendo quanto ao resultado final; exige uma sinceridade quanto ao que se faz. Do contrário, seremos relés artistas confinados no degrau mais alto acenando feito pavões e sonhando ser o que jamais seremos por termos sidos corrompidos pelo brilho lampejante do fracassado sucesso.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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