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Entrelinhas #7 – De um livro que tornou-se um espectro
Wednesday 06/04/2011 às 14:35 891 Views Arquivado em: Entrelinhas

Peço aos leitores que me abram espaço para um post um tanto quanto pessoal neste dia. Não usarei de críticas mordazes ou de observações linguarudas hoje; não falarei das obras alheias, tampouco constatarei fatos indignos como fiz ultimamente. Não. Se me permitem, caros leitores, falarei de algo mais íntimo e profundo: falarei de mim mesmo…

Hoje é quarta-feira, 06 de Abril de 2011… Há doze anos eu estava sentado, em silêncio, na varanda da casa de minha mãe quando ainda morava em Penedo, uma pequena colônia finlandesa no sul do estado do Rio de Janeiro. Era uma tarde pacata e meus olhos apenas fitavam as montanhas que, insistentemente, mantinham-se no horizonte perpétuo de minha visão quotidiana. Foi ali que, como um raio, veio-me a ideia de escrever O Livro de Tunes. No mesmo instante que fui assombrado por este devaneio, corri para o quarto e comecei a rascunhar a mão o que, uma década mais tarde, tornar-se-ia o livro tal como ele é. Sim, hoje é o aniversário de doze anos do início da escrita do Livro de Tunes que, se os leitores recordam, é um livro de minha autoria.

Nos anos que se seguiram não lembro de um dia em que não tenha escrito alguma linha da história, ou então feito uma anotação que, na falta de papel, era mantrada por horas em meu pensamento para que não a perdesse. No princípio, a história de Tunes não era o que é. Tratava-se de um compêndio medonho e extenso de oito livros, cuja parte publicada hoje com o nome de “A Trilogia de Tunes”, seriam os três últimos tomos. Batalhas, personagens aos punhados, inúmeros acontecimentos, raças das mais diversas, a invenção de cinco ou sete idiomas próprios – já não me recordo -, séculos e mais séculos passando-se de um livro ao outro num continuum horrível e sem sentido que conectavam-se das mais estapafúrdias formas entre um livro e outro, entre um personagem e outro, entre um delírio e outro… Tal era a coisa. Em meio a isso, minha precoce engenhosidade era testada ao limite do que seria possível descrever-lhes e, certa vez, num acesso de fúria por não compreender o que eu mesmo escrevia, queimei mais de mil páginas datilografadas para livrar-me daquele peso que carregava nos ombros desde 06 de Abril de 1999…

Contudo, o vulto do mundo imaginário que existia em mim não deixava-me em paz, e como um martelo atordoava minhas noites e dias incessantemente e mesmo tendo tornado-se cinzas, a história parecia não admitir que não fosse contada e por isso jamais abandonou-me. Assim, tornei a escrevê-la, e nos anos seguintes tratei de ser fiel aos sussurros deste espectro que se levanta e se deita comigo há tantos anos. Muitas madrugadas acordei sufocado e fui forçado a sentar-me e escrever o que me era dito, muitos dias perdi as horas a olhar para um horizonte que não via, muitas vezes chorei de angústia por não conseguir exprimir o que me era ordenado contar e muitas pessoas passaram por mim sem que eu as visse de fato, apenas imaginando-as como partes de um mistério obscuro que me rodeava a todo instante. Desta forma, de um mergulho só, vi-me cercado por um lusco-fusco imaginário que me inquietava e consumia, e já não faço caso de lembrar o dia em que consegui não sentir essa sombra ao meu lado, observando-me com olhos atentos, esperando que de uma vez por todas dissesse ao papel em branco tudo aquilo que ele mesmo não era permitido dizer.

Doze anos… É um tempo demasiado longo. Quando terminei o Volume I – Destino em 2009, pensei ter me livrado de metade da carga que me era exigida, mas para meu ledo engano, o que estava por vir foi ainda mais vasto e sombrio. Agora, passados doze anos e já tendo escrito o Volume II – A Tríplice Guerra (que está em fase de editoração), sinto que realmente está terminando, e enquanto escrevo o Volume III – O Sonhar, percebo a suavidade de um réquiem que se aproxima.

Peço que os leitores perdoem minhas lamúrias. Não tenho o intento de parecer melancólico ou coisa do gênero. De fato, meu único desejo é repousar a cabeça no travesseiro sem que sinta algo mais a deitar-se comigo; é um dia acordar e não mais precisar escrever sobre um mundo que pertence a outrem; sobre uma realidade que destrói a minha própria; é enfim descansar meus olhos no horizonte real e não no imaginário e, quem sabe, deixar este espectro insolente à soleira da minha vida; é sentir o vento tal como ele passa sem a necessidade de reportá-lo a alguém que não seja a mim mesmo e assim, fechar os olhos e descansar meu coração já desgastado com tantas invenções que não me pertencem…

Felicitações à ti, Espectro de Tunes, que por doze anos me atormenta dia e noite sem remorso. Hei de dar-te a tua paga em breve, e ela será selada pelos olhos daqueles que lerem a tua história… Em vista disto, façamos um brinde ao Livro de Tunes, pois seu fim se aproxima como um sonho…




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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