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Entrelinhas #9 – Breve comentário sobre tamanho
Wednesday 04/05/2011 às 20:43 1331 Views Arquivado em: Entrelinhas

Um assunto muito discutido em meios literários é a extensão de uma obra. Existem aqueles que defendem os livros longos, usando como argumento que assim a história torna-se mais detalhada; de outro lado, há os que preferem livros curtos, pois afirmam que a síntese é mais importante que detalhes. Então, como definir a linha que separa a obra demasiada longa e enfadonha, da extensiva, mas com detalhes relevantes? Como compreender o limite entre síntese e falta de assunto?

Os filósofos alemães eram mestres em se prolongar, e certamente aprovariam o tamanho de livros como A Torre Negra de Stephen King – apesar de sabê-lo que pela própria natureza de sua filosofia estes mesmos filósofos crucificariam-no pelo teor da obra -, pois não existe padrão de mente mais didático que o alemão que, diga-se de passagem, chega ao absurdo de escrever três volumes palavrosos intitulados “Pequena introdução aos hábitos dos elefantes”.

Certa vez um pretenso escritor nacional disse-me que planejava escrever sua obra em sete volumes. Aquilo realmente me espantou, pois como o sujeito poderia prever o tamanho da história, sendo que nem ao menos terminara o primeiro, ao ponto de dividi-la em sete? Isso geraria um esforço tremendo para manter a história e, logo, uma conversa fiada desmedida surgiria – tal como ocorreu.

O fato é que muitos dos livros em séries que vemos hoje são encomendados. Os leitores que me perdoem, mas é assim. Um determinado autor escreve um livro “x”; esse livro “x” é bem quisto pelos editores fuinhas que, melindrosos, sabem do potencial da obra. Convencem então o autor a prolongar a história por mais sete volumes – quem sabe oito! -, para melhor lucro. É uma equação simples, e bastante usada. Desta forma, um livro que sumiria da prateleira dos best-sellers em um ano, permanece por sete ou oito!

Vendo este padrão se fortificar, muitos dos escritores novos tendem a arquitetar seus escritos do mesmo jeito. Não creio, contudo, que seja lá uma decisão sábia. É bem pouco provável que um livro possa ser planejado, pois a história cresce por conta própria e é contada na medida do que se precisa contar; ao menos deveria ser assim. Stephen King disse, em sua introdução medonha do volume I de A Torre Negra, que criou esta série, digna de bocejos alarmantes, na intenção de fazer dela o mais longo romance popular moderno. Neste aspecto, certamente conseguiu atingir seu objetivo, sua obra está para a literatura real o que Descartes está para o pensamento oriental, ou seja, o oposto.

Assim, não existe um tamanho fixo que seja ideal. Contudo, o escritor deve ser ligeiro na medida do possível e longo na medida do necessário. Fazer-se compreensível não é prolongar o assunto por 30 páginas a mais do que o que de fato precisaria, tampouco sintetizar ao ponto de se tornar uma equação matemática. O que precisa-se de fato é atenção, fazer-se claro e objetivo, e lembrando que quem lê não pode se aborrecer, pois aborrecido, não pode entender.

Senhores, façam suas rasuras em seus cérebros e menos em seus escritos.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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