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Entrelinhas #8 – A psicologia da Fantasia
Wednesday 13/04/2011 às 14:56 1424 Views Arquivado em: Entrelinhas

“Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” (William Shakespeare)

É espantosa a disseminação da literatura fantástica nos tempos de hoje. Certamente, em nenhuma época houve tal burburinho em torno deste gênero que tanto satisfaz os mais diversos gostos. Alguns dizem que Tolkien é o culpado – se é que podemos chamá-lo assim -, pois vem dele a Alta Fantasia, que nada mais é que um conto de fadas um tanto quanto complexo e estapafúrdio. Contudo, os leitores que não se equivoquem, pois se por um lado temos um jorrar de histórias passadas em mundo imaginários, por outro temos uma banalização das mesmas.
É sabido por muitos que a fantasia exerce um papel fundamental na psique humana. Vem daí a importância dos contos de fadas dos irmãos Grimm. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, João e Maria ou Rapunzel são apenas alguns dos exemplos que citaremos aqui, pois a lista de contos que Jacob e Wilhelm Grimm criaram é extensa e numerosa. Entretanto, enganam-se aqueles que acreditam que os contos de fadas – ou como chamamos hoje em dia “literatura de fantasia” -, são para mero divertimento alheio. Não, há mais nisso do que podemos ver. Longe de serem simples histórias inocentes, a fantasia trabalha profundamente em nosso inconsciente, e enquanto nos entretém, nos esclarecem de forma indireta sobre nós próprios.
Na obra “Psicanálise dos Contos de Fadas” – percebam a semelhança com o título da coluna, senhores -, o autor e psicólogo-infantil Bruno Bettelheim demonstra que para dominar problemas psicológicos do crescimento, tais como decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas, etc., a criança precisa entender o que está se passando dentro de seu eu consciente para que também possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente. Desta forma, a fantasia cuida disso de maneira indireta, pois somente assim pode-se resolver tais coisas.
Noutros aspectos, a literatura de fantasia supre uma carência intrínseca ao ser humano que é a necessidade de escapismo. Num continuum de cotidiano estressante, qualquer um que deita os olhos num texto fantástico liberta-se de imediato das amarras de seu dia a dia. Assim, estes livros carregam nossos espíritos exaustos e dão-nos mais força para avançar em nosso próprio mundo. Entrementes, há ainda o trabalho dos arquétipos básicos de nosso inconsciente, sendo o mais fundamental a eterna briga entre “Bem e Mal”. Lúcifer e Deus, Chapeuzinho e o Lobo, Siegfried e Fafnir, Fingolfin e Melkor, Harry Potter e Voldemort e por aí vai; os exemplos são muitos e todos eles seguem o mesmo padrão. Ao final, o herói empunha a espada vitorioso e nós fechamos o livro satisfeitos.
Sabendo disso, é de suma importância que os novos escritores de fantasia saibam que estão lidando com um mecanismo sutil e primoroso para a mente humana; principalmente em relação as crianças. O que me entristece é ver que isso de fato não ocorre, e temos hoje mais coisas que corroem nossas mentes do que as ajudam. Um tormento em palavras, é o que nossa literatura de fantasia atual é. Ao invés de ajudar, atrapalha; quando deveria libertar, limita-nos; fazendo-se ao largo para vôo, caímos sem asas; saltando, quebra-nos as pernas; nadando, mata-nos afogados; dormindo, não despertamos mais; comendo, engasga-nos; bebendo, traz-nos um gosto amargo; lendo, fatiga-nos… Fantasia e Realidade se acrescentam e vivem mutuamente ao som da mesma voz.
Senhores, olhem atentos para o que escrevem! Façam como disse o Mestre: “Escritores, meditai mais e corrigi menos; façam suas rasuras em vossos cérebros”.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



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6 Comentários em “Entrelinhas #8 – A psicologia da Fantasia”


#1 Hiro Manju 13-04-2011 - 15:35 -
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escapismo, muito bom o termo.

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Magan responde:

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To estudando isso cara, romantismo.

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Hiro Manju responde:

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escapismo faz parte do romantismo?

achei que o escapismo era se entreter e escapar da realidade.

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Dhyan Shanasa responde:

Opera 9.80 Mac OS X 10

#euri

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#2 RUDYNALVA SOARES 13-04-2011 - 20:07 -
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A literatura fantástica tem esse poder: de nos fazer devanear, fugir ao real… escapismo mesmo!
E mais… tem o poder da manipulação, perdido nas atuais estórias frustantes e descabidas.
“Senhores, olhem atentos para o que escrevem! Façam como disse o Mestre: “Escritores, meditai mais e corrigi menos; façam suas rasuras em vossos cérebros”.”
Fiquemos então nos sonhos, amor e fantasia de Shakespeare…
Sucesso!
cheirinhos
Rudy

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Já comentou 323 vezes e é um verdadeiro Bookaholic!

#3 Paulinhaa 14-04-2011 - 08:42 -
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Não sou a maior fã de literatura fantástica… mas os poucos livros que li nesse gênero foram MARAVILHOSOS. É sempre uma boa fugir um pouco da nossa realidade ^^

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