entrelinhas category image
Entrelinhas #3 – De que maneira Victor Hugo encontra-se com Tolkien
Wednesday 09/03/2011 às 11:28 1177 Views Arquivado em: Entrelinhas

Dois escritores distintos. Cada qual de uma época diferente. Contando pelas respectivas datas de nascimento, estão separados por noventa anos de acontecimentos num tempo em que tudo convergia para a mudança brusca. Contudo, não é exatamente sobre eles que falaremos agora e sim sobre suas formas de escrita e como elas podem – e devem! -, ser fundidas urgentemente na literatura atual. Assim, os leitores podem substituir o título acima por um mais direto: “De que maneira a Literatura Clássica encontra-se com a Literatura de Fantasia Moderna”. Feito isso, sigamos em frente.
De um lado temos Tolkien, um ícone da descuidada literatura do século XX. Este conseguiu, através de árduo trabalho, elevar a Fantasia a um patamar mais sério e articulado, onde o Mundo-Médio possui problemas políticos e sociais tal qual nosso mundo os possui, mas mostrado por ele de forma velada e amalgamado num todo mitológico. Do outro, encontramos Victor Hugo que é considerado por muitos o “escritor por excelência”, inalcançável em potência e clareza de escrita, e que lida com a realidade nua e crua de nosso horrendo contexto social.
Os críticos mais severos espantar-se-ão ao ver-nos colocando-os lado a lado num texto, mas apressamo-nos em dizer-lhes, senhores, que não os estamos comparando de forma alguma, e sim usando-os como símbolos. Então, contenham suas línguas por ora.
Quando se trata de escrever algo, não se pode ignorar o mundo real que nos cerca. Digo-lhes que essa simples afirmação incomodará mais da metade dos escritores de Fantasia Moderna, posto que estes ignoram categoricamente esta simples coisa. Lendo de forma exaustiva os livros atuais, percebe-se a total alienação do que é dito. Não há prestação alguma de serviço, não há um acrescentar essencial para o espírito de potência humana, não há nenhuma reflexão íntima sobre nada.
Obviamente, a função primordial da Fantasia é dar-nos o luxo de sonhar e acreditar naquilo, mas isso não revoga a esterilidade do que é escrito hoje em dia. Fantasia não é sinônimo de pueril; ou melhor, não deveria ser. Aqueles que se dão ao trabalho de inventar um mundo mítico deveriam dar-se ao trabalho de observar o mundo que os rodeia. A função de todo e qualquer tipo de literatura é fazer-nos refletir. Do assunto mais trivial ao mais sublime, todos têm, por natureza, o mesmo intuito. Quem não percebe isso, não se situou quanto a importância da arte que verga nos ombros. Não é demasiado complicado quanto parece, tampouco fácil, pois exige tremenda observação e penetração na realidade intrínseca das coisas. Um livro onde o contexto imaginário é usado como plano de fundo para uma contundente crítica social é tão raro como um diamante na Lua. Contudo, pode e deve ser feito. A Alta-Fantasia de Tolkien é belíssima até dado ponto, mas como tudo que contém beleza neste mundo, os escritos dele são belos até um certo momento; passando dali, tornam-se banais, repetitivos e cheio de clichês ante olhos mais atentos.
O que dizemos não é uma crítica à J.R.R. Tolkien, é simplesmente uma constatação ao estilo de escrita limitado pelo âmbito mitológico que ele possui. Mas isso não é obrigatório. Esta limitação não existe de fato. Ela simplesmente é aceita e assim posta em prática pela mediocridade da mente humana preguiçosa.
Pessoas mais atentas podem por a prova o que dizemos, pois em Victor Hugo – ou qualquer outro gênio clássico -, percebe-se a invenção de muitas coisas, mas em momento algum deixa-se passar algo; de forma nenhuma um sujeito como Machado de Assis negligenciaria determinada situação ignorando o fato de que ali constata-se um deslize da natureza humana. Pelo contrário, eles dão ênfase a isso, e por vezes são pragmáticos no que dizem, insultando nossa sociedade de forma hilária.
Já dissemos noutro lugar, mas repetiremos por insistência de que os que lêem possam absorver o que é dito: a Fantasia necessita ser alicerçada na realidade. Isso deve ser feito urgentemente para parar esse ranço que vem corroendo algo tão belo quanto o imaginário. Isso deve ser entendido com clareza e colocado em prática. Havemos de misturar a reflexão com o imaginário, o sonho com a realidade, a sobriedade com o delírio, o fútil com o útil, o clássico com o moderno, o concreto com o surreal; devemos, deveras, abrir os olhos e perceber que basicamente tudo em literatura de Fantasia atualmente é inútil e irrelevante. Ouço constantemente leitores dizerem que lêem por entretenimento, mas percebo que entreter-se não é simplesmente abrir um livro e fitá-lo com ar de velho sábio. Não. O livro deve levar-nos a compreensão sobre a vida, e não uma falsa e inevitável saturação do horrível modo de se enxergá-la.
Fazer-se reflexivo e sentido, senhores. Não é impossível como endireitar à força a Curva do Horizonte. Perguntem à Ésquilo ou qualquer outro grande escritor.
Nossa primeira função, como diria Machado de Assis, é não aborrecer o leitor. Mas vejam! Nossa literatura atual é um completo e tedioso aborrecer de alma.




Sobre o autor do post:

Sou Dhyan Shanasa, autor de O Livro de Tunes (A Trilogia de Tunes), que teve sua segunda edição lançada em 2010 pela Editora Lexia. Tenho cá meus 26 anos de labuta, sendo 15 destes empregados já à escrita. Sou natural de Goiânia, mas confesso que não me recordo de ter morado lá. Atualmente moro em Pirenópolis, uma simpática cidadezinha no interior de Goiás e onde trabalho no terceiro e último volume do Livro de Tunes. Dentre outras coisas que não citarei, a poesia é a que mais me apetece, deixando-me mais brando com esse mundo vão. Twitter: @DhyanShanasa
E-mail: dhyan.shanasa@gmail.com



Posts Relacionados







:38 :37 :36 :35 :34 :33 :32 :31 :30 :29 :28 :27 :26 :25 :24 :23 :22 :21 :20 :19 :18 :17 :16 :15 :14 :13 :12 :11 :10 :09 :08 :07 :06 :05 :04 :03 :02 :01


13 Comentários em “Entrelinhas #3 – De que maneira Victor Hugo encontra-se com Tolkien”


#1 Amanda Cristina 09-03-2011 - 11:40 -
Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Nossa primeira função, como diria Machado de Assis, é não aborrecer o leitor. Mas vejam! Nossa literatura atual é um completo e tedioso aborrecer de alma.
Ótimo! Ótimo! Ótimo! Eu não tenho nem o que dizer sobre um texto tão perfeito! *Espero que não ligue por meus comentários demasiadamente pequenos… :13

[Responder]

Dhyan responde:

Google Chrome 9.0.597.107 Mac OS X 10.6.6

Obrigado, Amanda, e não se preocupe com tamanhos, o que é dito é dito mesmo que seja de forma breve.

Bjos

[Responder]

Já comentou 120 vezes e é um verdadeiro Bookaholic!

#2 Priscila 09-03-2011 - 12:15 -
Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Hey criança! :31 Seria pleonasmo dizer além do que já está implícito… Portante, me contenho a observar a brilhante guerra de gigantes que você nos apresenta, ou melhor, dos SEUS gigantes #euri … Eu deveria colar aqui aquele seu “aham” que você concordou comigo sobre HP para usar num futuro breve contra você, mas sabe como é, acordei boazinha hoje e vou deixar passar kkk :07 Já começou a coluna da semana que vem? Tic Tac! haha Beijinhos Arlequim :18

[Responder]

Dhyan responde:

Google Chrome 9.0.597.107 Mac OS X 10.6.6

meu “uhum” foi casual, #euri. Valeu, Pri, semana que vem agnt vê. bjocas

[Responder]

Priscila responde:

Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Minha palavra contra sua até que se prove o contrario. :12 #euri

[Responder]

Administradora do blog.

#3 Magan 09-03-2011 - 12:32 -
Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Realmente, não vejo nada construtivo em algo que só se baseia da imaginação e não do âmbito social. Torna-se algo inútil sem os pés no chão, um devaneio sem motivos e sem fundamentos para se firmar e dizer ser literatura. Literatura precisa estar ligada às necessidades, não a um mero capricho cheio de conversas palavrosas.

Ao Dhyan, as batatas.
Abs

[Responder]

Dhyan responde:

Google Chrome 9.0.597.107 Mac OS X 10.6.6

“Ao vencedor, as batatas” Machado de Assis em Quincas Borba

[Responder]

Você já comentou 9 vezes.

#4 Hiro Manju 09-03-2011 - 14:13 -
Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Hahaha, vc vai acabar ficando sem seguidores no Twiter Dhyan.

Muito bom! dessa eu gosteí”voizinha”

[Responder]

Você já comentou 10 vezes.

#5 Guto Fernandes 09-03-2011 - 23:04 -
Mozilla Firefox 3.6.15 Windows 7

Sempre que leio os textos do Dhyan fico mais impressionado com os temas que são desenvolvidos. Desde o primeiro post “Da realidade das coisas” tenho acompanhado a coluna, que fora um adendo valiosissímo ao Bookaholic. Concordo com esse fato de que a fantasia deve ser ligada a realidade, pois assim criticas poderiam ser colocadas de maneira que se tornam-se de melhor assimilação assim como de maior difusão.

E como sempre ao final de cada leitura sobra a reflexão sobre o que foi lido e a curiosidade sobre o que vem na próxima semana.

Congratulations, boy!

[Responder]

Você já comentou 5 vezes.

#6 Matheus Goulart 10-03-2011 - 14:18 -
Google Chrome 9.0.597.107 Windows 7

Nossa, Dhyan, você devia ir procurar emprego em algum jornal e ser colunista literário. Cara, você tem muuuito talento.

Adorei seu texto.

Abraços :28
Matheus Goulart.
# Bobagens e Livros
( http://www.bobagenselivros.blogspot.com )

[Responder]

Dhyan Shanasa responde:

Safari 533.19.4 Mac OS X 10.6.6

obrigado, Matheus, mas por lá certamente não poderia falar muita coisa… grande abraço

[Responder]

Filipe Machado responde:

Google Chrome 10.0.648.133 Windows 7

Concordo, não poderia falar muita coisa mesmo não. Isso porque somos de um tempo “sem censura” né. :37
Fica por aqui mesmo, os textos são ótimos. Algumas palavras eu não conheço, mas o contexto é entendível rs. Eu sei, eu sou meio burrinho :12

[Responder]

Você já comentou 29 vezes.

#7 RUDYNALVA SOARES 11-03-2011 - 20:41 -
Mozilla Firefox 3.6.15 Windows XP

“Havemos de misturar a reflexão com o imaginário, o sonho com a realidade, a sobriedade com o delírio, o fútil com o útil, o clássico com o moderno, o concreto com o surreal; devemos, deveras, abrir os olhos e perceber que basicamente tudo em literatura de Fantasia atualmente é inútil e irrelevante. ”

Surreal!

Sucesso!

cheirinhos
Rudy

[Responder]

Já comentou 323 vezes e é um verdadeiro Bookaholic!