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Sou pago para mentir?
Wednesday 07/11/2012 às 19:10 1507 Views Arquivado em: Literatura e Blá Blá Blá

Como já bem nos advertia o genial Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”. Mas e os romancistas, são fingidores também?
Poucas questões são tão recorrentes na minha carreira literária vindas dos que lêem o que escrevo quanto “mas aquilo aconteceu mesmo?” ou “o personagem fulano é você?” As respostas, ainda que pudessem tecnicamente serem reduzidas a “sim” ou “não”, por raro seriam fielmente respondidas com tão limitados advérbios.
Não obstante o frenezi causado pelo amor adolescente e afoito de Caroline e Leandro em “Todas as estrelas do céu“, agora são Lucas, Paty, Fernando e seus colegas que jazem sob toneladas de dúvidas acerca de até onde é verdade tudo que aparece no meu último livro. Diferentemente do anterior, bem datado, “Três Céus” tem a mesma fidelidade aos cenários reais, mas é bem mais atemporal. Ainda assim, tem gente que vê nome de empresa, notícias e fatos onde apenas, em tese, temos uma ficção bastante realista. E vem aí a palavra mágica: verossimilhança.
Nenhuma outra característica é tão inerente à boa literatura quanto a tal da verossimilhança: a impressão de verdade que a ficção consegue provocar no leitor. E por mais que meus livros contenham aspectos cotidianos e outros extraordinários mas ainda assim bastante paupáveis e presentes no repertório sensorial e na memória dos leitores, a literatura fantástica também usa e abusa da verossimilhança. Se Hogwartz não parecesse de verdade, se o universo de Harry Potter não fosse coerente o suficiente, J.K. Rowling jamais teria sido o sucesso que foi, por mais que bruxas não existam (nem venham com o “las hay las hay”).
Ou seja, somos mentirosos profissionais, e ficamos tão bons nisso, que as pessoas acabam acreditando até em mais coisa do que haviam se disposto a acreditar no começo do livro – leitores de ficção são tão cúmplices do escritor quanto espectadores de um show de mágica são de um mágico. Há inúmeras categorias de mentirosos. Desde os assumidos – como eu – quanto os dissimulados e até os quase não-mentirosos. Na literatura de aviação, onde o “Três Céus” pleiteia um posto pouco frequentado entre ficções puras, temos o grande Ivan Sant’anna como representante dos dissimulados. Seus maiores sucessos, “Caixa Preta” e “Perda Total“, parceiros próximos nas estantes das livrarias de aeroporto, descrevem acontecimentos reais, mas com alto grau de ficção, em especial na narração romanceada dos acontecimentos. Já Gianfranco Betting (“Blackbox“) também usa um pouco de romance, mas se prende bem mais a uma descrição factual e técnica dos acontecimentos. Por último, temos um documentarista exemplar, Daniel Leb Sasaki (“Pouso Forçado“) e o relato contundente do cenário atual da aviação no Brasil do comandante Márcio Branco, mais testemunhal e opinativo (“Na Cabine de Comando“). Ou seja, não importa muito a área da Literatura, bem mais importante que ser verdade, é ser verossimilhante. A verdade pura e isenta é mesmo inalcançável, uma vez que não existe informação sem persuasão. Mas tudo em casa, afinal, como já dizia Pessoa, vocês que lêem o que escrevemos, na dor lida sentem bem. Não as duas que nós tivemos, mas só a que vocês não têm.




Sobre o autor do post:

Enderson Rafael nasceu em Florianópolis, em 1980. Escreveu seu primeiro romance, aos 19 anos. Formou-se bacharel em Comunicação (Publicidade e Propaganda) pela ESPM-Rio, escola que em 2006 apoiou a publicação de seu segundo livro "Propaganda e Marketing para vestibulandos, calouros, curiosos e simpatizantes". Neste meio tempo, escreveu dois roteiros de longa metragem para cinema, "Geribá" e "Mil Mares". Em 2010, lançou seu primeiro romance, "Todas as estrelas do céu" e agora trabalha como comissário de voo, profissão na qual já soma 5 mil horas de voo e que inspirou seu segundo romance, a ser lançado em 2012, "Três Céus" pela editora Gutenberg.
E-mail: endeblog@gmail.com



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2 Comentários em “Sou pago para mentir?”


#1 Yara Prado 07-11-2012 - 19:50 -
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Ai Ende, eu ADORO as suas postagens!
Amei o texto…
E eu adoro a verossimilhança.
Acho que eu leio mesmo por causa dela… E adoro ser “enganada” pelos autores… É uma forma muito boa de fugir da nossa própria vida!

PS: Eu sempre me pergunto se os autores passaram por alguma coisa que os personagens estão passando… haha
Bjs.

[Responder]

Enderson Rafael responde:

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Obrigado, Yara! Bom, como diria a prima da minha amiga muitos anos atrás quando indagada sobre um momento chave da sua adolescência, numa viagem de fim de semana com o namorado… “se eu disser que fiz tudo, tô mentindo. Se eu disser que não fiz nada, também tô mentindo.” hahaha

[Responder]

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