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Trava-língua: Como escrever livros que se passam no exterior
Wednesday 13/06/2012 às 08:00 3371 Views Arquivado em: Literatura e Blá Blá Blá

Olá, queridos Bookaholics! Estou de volta aqui na coluna “Literatura e Blá blá blá” para conversarmos sobre um tema que assombra os autores, e também editores e indiretamente revisores e tradutores. E assombra essa gente toda pra que não assombre os leitores quando chegar a vez de vocês lerem o que escrevemos, editamos, traduzimos e revisamos!

Bom, é muito comum encontrarmos no Brasil livros traduzidos de outros idiomas, principalmente do inglês, e geralmente, todo o texto é traduzido, sem muito problema, mantendo-se quase sempre o nome dos personagens originais (Edward e Bella, por exemplo) ou não (quem não lembra da pendenga bíblica do James/Thiago de Harry Potter?). Já os nomes das cidades são traduzidos sem muita piedade (London vira Londres com a mesma facilidade que New York vira Nova Iorque). Mas e os diálogos?!

Quando o livro é todo escrito numa língua e traduzido para a outra completamente, fica como um filme dublado. Parte-se do princípio que o leitor desconhece o idioma original da obra, e se o leitor não estiver incomodado com essa suposição, ótimo. Mas o grande problema surge quando o livro é escrito numa língua mas se passa no país de outra. O cinema tem soluções criativas e polêmicas. No maravilhoso “The Hunt for the Red October” (“A Caçada ao Outubro Vermelho”), a tripulação do submarino soviético, que vinha falando russo até então, começa, do nada, a falar inglês (ou português, na versão dublada). E azar o seu se achou isso bizarro. Não li o romance que originou o filme sobre a Guerra Fria ainda, mas quando eu for ler, digo para vocês qual a solução que o autor Tom Clancy deu para o imbróglio. Afinal, na Literatura não temos legendas, dublagens e um monte de outros recursos dos quais as artes audio-visuais dispõem.

No “Todas as estrelas do céu” eu não tive esse problema, pois a história se passa toda no Brasil com brasileiros. Nos meus dois roteiros de longa (“Geribá” e “Mil Mares“) tampouco, pois em roteiro você escreve a fala na língua estrangeira e coloca as legendas no final da cena. Foi em 2007, quando comecei a escrever “Três Céus”, que pela primeira vez tive que enfrentar a questão de frente. Logo no começo do livro, Eva, uma estudante francesa que faz intercâmbio na Argentina, aparece pra mexer com a cabeça do nosso primeiro protagonista, Lucas Luchesi. E eles conversam em… espanhol! A questão é: como passar o diálogo da forma mais verossímil possível de maneira que o leitor que não fala espanhol não fique boiando?! Nós, que falamos português, temos a facilidade de que o espanhol é uma língua prima do nosso idioma, então, em boa parte das frases, dá pra entender o que é dito. O idioma aparece mais vezes durante o livro, e em geral é seguido de uma frase ou ação em português que evidencia o que o trecho em língua estrangeira significou. Além de ficar mais real, serve de incentivo para quem quer aprender o idioma de Cervantes.
Já no livro que estou terminando de escrever, “Alba”, é que a coisa complica de verdade. No que será minha estreia em um romance em primeira pessoa, nosso protagonista brasileiro vai para a Escócia se suicidar – calma, quando vocês forem ler, tudo fará sentido: minha beta reader Priscila que o diga… – e praticamente tudo à sua volta acontece e é falado em inglês. Como passar isso para o leitor leigo na língua de Shakespeare? Quando o livro sair vocês verão a solução que encontrei. Uma delas, bem semelhante ao que estou vivendo aqui nos Estados Unidos, é nosso protagonista estar cercado de gente que fala português (na Escócia é mais difícil encontrá-los, mas só no meu condomínio aqui há uma dúzia de brasileiros). E vocês, o que preferem? A solução à la “A menina que roubava livros”, mesclando as línguas nos diálogos? Notas de rodapé com legendas? Um beijo enorme e até a próximo coluna!




Sobre o autor do post:

Enderson Rafael nasceu em Florianópolis, em 1980. Escreveu seu primeiro romance, aos 19 anos. Formou-se bacharel em Comunicação (Publicidade e Propaganda) pela ESPM-Rio, escola que em 2006 apoiou a publicação de seu segundo livro "Propaganda e Marketing para vestibulandos, calouros, curiosos e simpatizantes". Neste meio tempo, escreveu dois roteiros de longa metragem para cinema, "Geribá" e "Mil Mares". Em 2010, lançou seu primeiro romance, "Todas as estrelas do céu" e agora trabalha como comissário de voo, profissão na qual já soma 5 mil horas de voo e que inspirou seu segundo romance, a ser lançado em 2012, "Três Céus" pela editora Gutenberg.
E-mail: endeblog@gmail.com



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14 Comentários em “Trava-língua: Como escrever livros que se passam no exterior”


#1 Filipe Machado 13-06-2012 - 10:43 -
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É, ese negócio é complicado, mas quando o cara escreve bem como você, não há dúvidas de que o resultado será ótimo. :16

Quanto ao James/Tiago, tipo assim, eu acho meio “nada a ver”. Tudo bem que na Bíblia foi traduzido assim, mas, no meio de Harry, Ronald, Hermione, Snape, Sirius, Voldemort, não acham que Tiago é meio comum?

Enfim, existem livros que a tradução se torna excelente, já outros, nem tanto… Eu, particularmente, prefiro aqueles que chegam até a incluir expressões não língua original pelo meio da história. Fica mais real e interessante. Entre os livros juvenis, destaco os livros do Rick Riordan, onde os tradutores (tanto a Débora Isidoro como o Ricardo Gouveia) conseguiram deixar a coisa bem legal.

Abraços, e boa sorte com o livro :04

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Enderson Rafael responde:

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Oi, Filipe, obrigado! Pois é… eu não gosto muito da ideia, mas às vezes é preciso mudar. Por exemplo, uma vez uma tradutora começou a tradução do “Todas as estrelas do céu” para o espanhol. A Carol virou “Caro”, pois é a maneira como eles apelidam Carolina/e lá.Abraço e obrigado pelo comentário! E parabéns por citar os tradutores, eles são grandes profissionais que merecem ser reconhecidos pelo trabalho bem feito!

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#2 Jéssica 13-06-2012 - 12:04 -
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To amando essa coluna *-*
Super interessante os temas abordados !!
Vocês são demaais!
Beijoos

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Enderson Rafael responde:

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Oi, Jé! Sem vcs, leitores, é que a coluna não existiria! Beijão!

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#3 Alexandra Rodrigues 13-06-2012 - 14:52 -
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Deve ser muito complicado fazer livros assim mesmo.
E essas traduções me chateiam muito, ainda não tenho muita prática em ler livros em inglês, por isso ainda não faço isso, mas filmes dublados não assisto nem que me paguem, a tradução é muito fajuta, não curto muito.

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Enderson Rafael responde:

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Cá entre nós, tb não gosto de filmes dublados, Ale. Pior que hoje em dia tá difícil encontrar legendados nos cinemas, né… bjão!

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Alexandra Rodrigues responde:

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Verdade, mas sempre que tem pego sessões em que estão filmes legendados, a dublagem muitas vezes sai meio que…falsa, não gosto mesmo!
Beijos e Sucesso!

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#4 Helaina Carvalho 13-06-2012 - 15:53 -
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Ainda não li “A menina que roubava livros” mas fiquei curiosa ra saber como ocorre essa mescla das línguas nos diálogos.
Muitos livros da série Arquivo X que eu li tinham notas de rodapé pra ajudar.
Agora, façam tudo menos o que fizeram com o pai do Harry. Já li as explicações quase filosóficas para as mudanças que fizeram mas eu preferiria que valesse a máxima que muitos de nós, senão todos, aprendemos nos cursinhos de líguas: “Nomes não se traduzem!” Acho que nome é algo muito pessoal para estar sujeito a uma tradução.

Tem um selinho pra você no meu blog!!!
Espero que goste!!
http://hipercriativa.blogspot.com.br/2012/06/meme-literario-selo-de-qualidade.html
Beijusssss;

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#5 Rebecca 15-06-2012 - 21:43 -
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Não sei se vale pra todos desse tema, mas eu gostei muito da solução de “A menina que roubava livros” que insere palavras em alemão nos diálogos em português, porque pra quem não conhece muito do idioma abordado é bem mais fácil de entender e até aprender, pois tem alguns idiomas que se você não tiver uma base, principalmente os que não são derivados do latim, não dá para entender nada.
E quanto aos personagens, acho que só deveriam ter os nomes alterados quando é muito incomum e difícil de ler mesmo, o que nem de longe é o caso do James/Tiago.

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#6 Yara Prado 17-06-2012 - 10:40 -
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Hum, coisinha complicada, né?rsrs
Eu prefiro Notas de rodapé com legendas… Acho mais prático e um pouco mais fiel ao que o autor quis realmente passar…
Bjs.

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#7 Anelise 18-06-2012 - 07:58 -
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Tema complicado esse, né? É bem difícil falar dele! Mas como já tive exemplos ótimos e outros péssimos, acho que tenho uma boa base. Bom, acho que pra pessoa escrever um livro que se passa em outro país, primeiramente deve haver muitas, mas MUITA pesquisa. E sobre os diálogos, expressões, etc, se não forem muitos, acho legal não traduzir, e sim colocar uma nota de rodapé. (Um exemplo muito bom de um livro desse nível é o Fazendo meu filme 4, da Paula Pimenta. Ele se passa na California, com personagens que falam inglês, portunhol, etc, e ela soube explorar muito bem tudo isso). Agora, já li muita coisa ruim, muito autor brasileiro que viaja legal, sabe? Gente escrevendo livro com personagens brasileiros (que moram no Brasil) totalmente americanizados, com nomes estrangeiros e que, sei lá, frequentam escolas com armários e são líderes de torcida. Esse tipo de coisa, sabe? Então sei lá, acho que é preciso muito tato pra coisa, se não o autor acaba é pagando mico. :04

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#8 William S. C. 10-07-2012 - 00:27 -
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Estou passando por essa mesma situação. Sempre quis escrever um livro que se passe na neve, e como seria impossível um cenário desses aqui no Brasil tive que transportar a história para a Finlândia, em uma pequena cidade ficticia chamada Talvikuinem. Como na Finlândia mais da metade das pessoas fala inglês considero como se este fosse o idioma falado pelos personagens. Tenho pesquisado MUITO sobre o clima, os costumes, as expressões e o comportamentos das pessoas deste país. A história é boa, sou bom em escrever diálogos, minha única preocupação é quanto as diferenças entre as duas línguas.

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#9 Wellington 03-12-2012 - 00:46 -
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Olá, achei muito interessante o seu texto, por isso decidi escrever pedindo uma opinião. Escrevo um livro, um projeto ainda, no qual os personagens são estrangeiros, a estória se passa no exterior, mas no fundo há uma forte relação com o Brasil que vai sendo exposta aos poucos. Você acha que a nacionalidade dos personagens seria motivo para que o texto fosse tachado como antipatriota? Agradeço a atenção!

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Enderson Rafael responde:

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Boa pergunta, Wellington. Eu sou da corrente de Fernando Pessoa: minha pátria é minha língua. Logo, se você escreve sobre Marte em Português do Brasil, é Literatura Brasileira. A gente vê de tudo: enredo no Brasil com personagens cujos nomes lembram filmes americanos, enredo lá fora com traços claros de cultura brasileira, e por aí vai. O que conta, na minha opinião, é a coerência, a tal da verossimilhança. Se você escrever algo que faz sentido em si mesmo, não importa muito a nacionalidade dos personagens. Quem quiser rotular disso ou daquilo que rotule. No final, somos todos cidadão do mundo, e se nosso passaporte nos confina um tanto, é pela mesquinhez humana de dividir uma só Terra em territórios arbitrários. Grande abraço!

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