A Ilha

Era uma vez um homem que ouviu ainda criança a falar sobre uma ilha perdida. Essa ilha se escondia em algum lugar desconhecido do mapa e da civilização como um todo. Ele ficou encantado com tal lugar e resolveu dedicar sua vida toda a procura desta Ilha. Anos e anos se separam e durante a busca ele encontrou diversos lugares interessantes; poderia muito bem ter terminado os seus dias em algum deles e certamente seria feliz, mas nenhum daqueles lugares lhe passava a sensação de “casa”. Então, ele sempre arrumava de novo a mochila e saia vagando em seu percurso solitário.
Eis que um belo dia, a busca terminou. Nosso herói encontrou o lugar que tanto procurava. Não perderei tempo em descrever a alegria e a sensação de plenitude que sentiu, mas depois de muito tempo se sentiu em casa. Ele tinha uma casa. Meses se passaram e a cada dia o amanhecer parecia ser mais bonito. As águas do rio que passava por ali eram cristalinas, puras. Para todos os lugares que olhava, ele via um pedacinho de sua felicidade. Não poderia ser mais perfeito até que…
Algumas pessoas da Ilha, em certo momento se incomodaram com a presença daquele homem ali entre eles. Nao que ele atrapalhasse de alguma forma, pelo contrario, mas parecia errado que ele estivesse ali com os nativos e por isso pediram que ele fosse embora. Neste dia, o mundo dele caiu. Ele havia passado sua vida toda procurando aquele lugar e agora lhe pediam para deixar tudo pra trás e ir embora… Pra onde ir? O que fazer? Não vou dizer que ele não tenha encontrado seu caminho porque ele encontrou sim. Por mais que a ilha fosse o ápice de seu sonho mais bonito, ele também não queria viver num lugar onde não era bem-vindo… Então ele seguiu seu caminho, ora numa floresta, ora num bosque ou vale. Viu paisagens bonitas e vivenciou momentos agradáveis. A ilha, entretanto, nunca saiu de seu pensamento tampouco de seu coração. A ilha, era o único lugar onde ele se sentia em casa.

  

O Voo da Borboleta

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Palavras tem vida própria e não tem hora nem dia, tampouco precisam de motivo… Palavras são borboletas. São borboletas que ganham os céus e podem perder-se no vento ou mesmo escolher que ficam, e aí, borboletam no estomago. Borboletas no jardim, na rua, nos livros e dentro de mim. E de todos. Polinizam aquilo que cada um carrega dentro de si e por isso mesmo há risos tristes e felizes pela avenida. Cada um transborda o que o coração carrega. Borboletas são meu grito de liberdade e prisão. A borboleta é a Flor quando torna-se Palavra… E ela voa… e um dia não se poderá mais alcançar.

Caleidoscópio

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Não existe nada que possa chamar de novo. Cada pedacinho, é o mesmo e sempre foi. Um pedacinho colorido de vidro. Ele brilha, reluz, enfeita… mas corta. E conforme a vida gira, tudo muda. E eles dançam. Quem assiste de fora, acha o espetaculo bonito; uma dança de cores e brilhos… Ah… e como brilha! Não peça para organizar as peças de uma determinada maneira, é impossivel ser o que já foi. Metamorfose. Uma coreografia nova todos os dias. Os espelhos? Eles refletem apenas a imagem que cabe a você. E cada angulo é completamente novo… e desigual. Cada angulo é apenas uma visão diferente de algo imutavel… ou quase. Porque sempre existe um quase. Caleidoscópio. Apenas mais um, dos meus muitos nomes.

12/12/12

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A todos que estão aí reclamando que deu 12/12/1212:12 e “nada aconteceu”, sinceramente eu acho que vocês estão bem enganados. Não sei se vocês queriam um apocalipse zumbi ou que ligassem dizendo que você herdou uma fortuna de um parente desconhecido (ok, esta eu também queria mas não precisava ser exatamente hoje). Às 12:12 do dia 12/12/12 tem um céu azul lindo lá fora. Tocou na rádio uma música que eu adoro; eu acenei para o porteiro do meu prédio e ele retribuiu com um sorriso sincero. Às 12:12 alguém terminou de escrever um livro; no mesmo segundo em que o garoto conseguiu finalmente terminar aquela fase do game que parecia impossível. Às 12:12 é bem provável que alguns tenham nascido e outros morrido também. O que importa é que tem muita coisa acontecendo no dia 12/12/12 às 12:12 … Só não acontece pra aqueles ficam aí parados… esperando… esperando… vendo a vida simplesmente passar. Aproveita que hoje é um dia “importante”, e diga para alguém que você goste o quanto ela é especial. Faça alguma coisa e seu dia será bom tanto hoje, como amanhã, e depois e depois… Eu vou celebrar o meu dia de hoje como o melhor dia da minha vida, mas amanhã vou fazer tudo de novo, porque o amanhã sempre tem que ser melhor que o hoje. Você pode ficar aí reclamando que não encontrou seu príncipe encantado, que tem contas a pagar e que pode ser que chova no fim de semana… Cada um vive a vida como quer não é mesmo? Agora com licença que preciso ir correndo ali ser um pouco mais feliz, porque hoje é 12/12/12 🙂

Todas as Estrelas do Céu

Essa é a história de um certo amigo, que não vou chamar de meu melhor amigo pois eu seria injusta com os demais; há muito outros que são bem mais próximos e devo dizer que nem sei sua cor favorita ou o numero do seu pedido no McDonalds; mas é alguém que eu aprendi a amar por simplesmente existir, por ser quem ele é e hoje acordei com vontade de falar dele. Não vou dizer que o amo por essa ou aquela qualidade, isso seria desnecessário pois o resto do mundo quando o conhece vê esses detalhes por conta própria; ele é um amigo que amo pela leveza de sua alma, por seu coração que está sempre no céu… O céu… me arrisco dizer que é seu lugar favorito no mundo todo. Muitas pessoas passam por ele todos os dias mas imagino que quase nenhuma percebe a grandeza da pessoa que se encontra por tras de seu uniforme. Eu não o conheci pelo sorriso simpático e tampouco importa dizer também se foi entre as nuvens ou terra firme, porque quando eu o conheci, ele nem estava na minha frente, eu o conheci através de seu coração, traduzido em belas palavras. Quando eu me dei conta, ele já fazia parte da minha vida, naquele espaço que se reserva somente as pessoas que se quer levar pra vida toda. As vezes ele me surpreende me contando coisas que nem eu mesmo tinha percebido e nossas conversas são em grande parte apenas trivialidades do cotidiano… Mas esse amigo, que é sempre dono das palavras, as vezes precisa de algumas que sejam dele também, que não venham de seus próprios dedos, mas que o lembrem que mesmo quando tudo parece dar errado, existe sempre alguém que ainda não desistiu dele. Esse meu amigo, é uma pessoa de grandes sonhos e talvez você possa dizer que é porque ele vive com a cabeça nas nuvens, seria uma grande verdade! Um belo dia você vai ouvir falar deste amigo meu, não porque que ele será muito famoso ou porque o reconhecimento que ele merece o colocará nas revistas e na tv, mas você vai ouvir falar dele porque mesmo quando nem ele mesmo acreditar, eu ainda estarei falando dele, porque ele simplesmente merece, muito mais que todas as estrelas do céu…

O Jardim – A poesia da terra

A este que vos apresento agora, chamamos Jardineiro. Ora ou outra podemos até chama-lo de homem ou menino, mas seria tolice. Nosso Jardineiro já foi menino, mas o lidar com a terra e a sabedoria que adquiriu por te-la entre os dedos, deram-no um coração grande; bem maior que este Jardim portanto fica difícil lhes descrever ou tentar mensurar. Não vamos também coloca-lo como homem, bem sabes que por aí existem muitos que se deixaram crescer e se desinteressaram das coisas mais importantes do mundo como a beleza do arco-iris e a suavidade do orvalho; nosso Jardineiro muito preza por todas essas coisas então aqui ele será apenas isso, o Jardineiro, artesão da terra, homem e menino na proporção que lhe cabem em sua plenitude.

Durante muito tempo, antes de encontrar o conforto deste Jardim, ele vagou sozinho. Nem tentaremos descrever seus espinhos porque ninguém senão ele mesmo é capaz de entender a profundidade que eles lhe feriram – ou ferem – porém sabemos que para seguir em frente, mais cedo ou mais tarde ele precisaria travar um duelo com cada um deles; arranca-los da carne ainda que isso lhe custe um pedaço de si mesmo. Um certo dia, por travessura do Destino – ou chame você como quiser explicar estes acontecimentos que fogem ao nosso entendimento – o Jardineiro se encontrou aqui. Não vamos dizer que ele tenha encontrado o Jardim porque este não é um desses lugares que você adentra por um portão de ferro quando bem entende, ele se esconde aos que apressados passam preocupados demais com seus afazeres do dia.

Quem o encontrou primeiro certamente foi o Vento em uma de suas travessuras pelo mundo afora. É difícil dizer onde ou como pois bem sabes que ele não tem rumo e o curso e sua dança é livre, portanto estar aqui ou ali não faz muita diferença. Ainda cedo, quando o sol se espreguiça entre as colinas, nosso bom homem já conversa com o Vento e é bonito para quem vê de fora a relação deles. Eles não são amigos se por amizade você entende este padrão ditado por aí afora. O Vento não poupa nem mesmo o Jardineiro quando precisa ser vendaval e sopra toda fúria de sua essência se necessário for para que ele desperte. O sono da dualidade, do julgamento. O sono que todos estamos sujeitos, mas que apenas alguns se dão conta da sua existência. E o Jardineiro então acorda de si mesmo, do sono que nem ele sabia que dormia.

Folha por folha, raiz, caule, espinhos; ele tece seu Jardim com uma destreza ímpar. A própria Flor se deleita nesta relação… Engraçado é dizer que ele chegou a pensar que a conhecia. Talvez ele entenda de flores e saiba o tipo de solo que lhes agrada, conheça a quantidade de água que necessitam e os nutrientes que lhe fazem bem para que as pétalas estejam sempre vistosas e belas, mas conhece-la, nem mesmo ela conhece. Mas ele a aprendeu. O coração dele e da Flor em alguns momentos batem no mesmo compasso e ainda que lhe faltem palavras as vezes, ele enxerga nos mínimos detalhes a realidade da Pequenina. Tão frágil e tão forte… As lágrimas do Jardineiro, nada mais são do que o orvalho que transborda da Flor, eis a poesia da terra.

Inevitavelmente falamos aqui também do Pássaro. Não apenas por ele morar no Jardim, na verdade mais do que ninguém o Pássaro e o Jardineiro se entendem. Mais que isso, eles dividem um ser, separado em dois corpos por mera conveniência. Ele forte e sofrido pelas lições da vida, o pássaro pequeno e frágil na sutileza de seu mínimos detalhes. Sempre arisco pelas gaiolas que já lhe roubaram da imensidão do céu, nunca deixou-se levar por uma relação de verdade; qualquer aproximação mais terna lhe era uma ameaça e o Jardineiro sabia disso. Foi preciso cuidado e dedicação para que a cada dia ele se permitisse chegar um pouquinho mais perto, e hoje o Pássaro pousa sobre seu ombro e entre cantos e risos a melodia da vida soa em sua forma mais bela.

O Jardineiro talvez seja um menino que cresceu depressa demais. Não deixou para trás o coração e a inocência da infância mas aprendeu com dedicação cada lição que a vida lhe proporcionou. E continua aprendendo; boa parte do que hoje lhe atribuímos como sabedoria é na verdade um pouco de todas essas relações que ele tomou para si. O Vento, a Flor, o Pássaro… Tantas outras na verdade mas que não cabem aqui. O Jardineiro é um desses bons amigos que carregamos junto ao peito, com a certeza de que aconteça o que acontecer, mesmo em silêncio, ele sempre estará lá …

O Jardim – A História do Vento

Esta é uma daquelas histórias difíceis de serem contadas por faltar palavras para escreve-la. Não por ser escassa a morfologia da gramática ou desta Língua, mas por ela se passar, em sua maior parte, em Entrelinhas. Entrelinhas… Esta é a linguagem do Vento.

Narramos aqui a história de uma flor que plantada em um amplo jardim e cercada por tantas outras plantas não era nem um pouco extraordinária, pelo contrário, fazia de tudo para levar seus dias sem chamar muita atenção e se sentia feliz a sua maneira com o simples fato de, dia após dia, receber sua dose de sol e banhar-se com a água da chuva.

Sua vida não era um “mar de rosas” como se pode imaginar: se lhe perguntassem sobre novidades, ela teria pouco para lhes dizer; na verdade via o Jardim todo se desenvolver e crescer mas não fazia questão alguma de fazer parte daquilo.

Em um belo dia enquanto ela se distraía com o canto dos pássaros, observou que algumas árvores dançavam uma valsa de sussurros… Ora, não demorou para que também provasse do acalanto. Sentiu um arrepio lhe tomar o corpo todo, e quando deu por si estava na mesma dança que, há poucos instantes, só observava.
– Quem é o responsável por isto? – perguntou ela.

Então, do mesmo jeito que os sussurros tinham surgido sem aviso prévio, fez-se silêncio.

– Vejo que tu não me conheces – disse uma voz fria -, ou talvez conheças, mas não sabes o meu nome. Chamam-me Vento, mas tu podes dar-me o nome que quiseres. Um nome é só um nome; eu mesmo tenho vários, assim como são vastos os movimentos de minha dança que se espalha por onde passo. Sou brisa e vendaval, tudo depende da parte que lhe cabe em meu ser.

A Flor, desacostumada com a libertinagem que exalava de seu novo amigo, viu-se encantada. E, vejam bem, não é difícil encantar uma Flor, na verdade elas possuem um sorriso fácil e sincero para a maior parte das pessoas que se fazem merecedoras de tal prenda. Mas de alguma forma, ele era diferente… O tempo passou e o Vento se tornou muito querido para nossa pequena Flor. Não que com ele a Flor falasse sobre suas pétalas ou perfume; na verdade, eles passavam as horas falando sobre trivialidades e rindo da ironia dos dias. A Flor, em sua inocência e insensatez, às vezes não compreendia algumas coisas sobre o Vento, mas eles pertenciam a mundos diferentes e não cabia a ela entendê-las, e isso só o Tempo poderia mostrar. Já o Vento ria da meninice da Flor e seguia seu curso travesso, dançando aqui e ali como lhe convinha.

Essa é a história da Flor e o Vento. Não poderíamos falar mais que isso, pois como o prelúdio dessa história diz, a maior parte dos acontecimentos não se faz explícita a olhos desatentos, tampouco afirmamos que seja um romance ou uma história sobre amizade – o primeiro por não caber aqui e o segundo por certamente os leitores encontrarem por aí histórias mais bonitas e convencionais que sobreporiam esta em muitos sentidos. A história da Flor e o Vento acontece em parte pelo que se diz e em parte pelo que se vive. Contudo, eis a história que a Flor conta sobre o seu Vento; e para ela basta que seja assim, pois é rara como uma rosa bicolor, como ele mesmo, o Vento, uma vez lhe contou e descreveu existir…

O Jardim

Essa história que vos apresento agora trata sobre alguns personagens bem singulares: o Vento, o Pássaro, o Jardineiro, a Flor e o Menino que tinha o coração de lata. O Menino em questão, aos que os observam despretensiosamente, descreviam-no como alguém muito feliz que sorria o tempo todo e espalhava alegria por onde fosse, era intenso em tudo que fazia e orgulhava-se de seu trabalho, seus pais, seus amigos. Gabava-se por aí de sua valentia mas tinha um grande medo em seu coração: o de não conseguir aproximar-se realmente de alguém. Quando acontecia, ficava muito feliz, mas antes que este alguém fosse embora (ou ele simplesmente achasse que fosse), ele se fechava e saía primeiro…

É provável que seja esse o motivo pelo qual o Menino se dava tão bem com o Vento; afinal, sabem bem como é o Vento, bom… o Vento é livre. Ele corre pelos quatro cantos do mundo mas não tem morada fixa, faz sua dança de sussurros e não florearemos dizendo que muitos gostavam dele, pois ele pode ser forte, cortante, frio e seco quando assim lhe convém, mas é também bom e necessário para aqueles que sabem apreciá-lo; uma dentre estes poucos, a Flor. Vejam bem, não cabe aqui dizer se ela era feliz ou triste, se era da família das rosas ou margaridas; na verdade, pra quem vê de fora, uma flor é só uma flor, é frágil, delicada, perfumada e bela; porém, se você permitir-se aproximar um pouco mais, vai perceber que ela tem seus espinhos, muitas de suas pétalas já caíram e outras muitas vão cair, mas nosso foco hoje não é falar de flores.

Em um belo dia, o Vento apresentou a Flor ao Menino de Coração de Lata e talvez ele não tivesse idéia do que estava fazendo (ou talvez sim, quem sabe?), poderia ser uma brincadeira de um dia onde lhe fora permitido ser apenas brisa e ele queria algo diferente, mas foi assim que o Menino de Coração de Lata entrou na vida da Flor. Seria tolice dizer que os dias dela mudaram, ela era uma flor e por mais que o mundo girasse ao seu redor, permanecia ali, em seu singelo jardim a contemplar a vida. A diferença destes mesmos dias, é que no fim da tarde, este Menino agora se sentava ali com ela. Às vezes, nem conversavam, só o silencio lhes bastava, a companhia um do outro era suficiente. A Flor era só sorrisos e seu coração transbordava em gratidão por ter em sua vida alguém tão especial; não demorou muito também para que àquelas tardes serenas fosse somada a companhia de um Pássaro.

A Flor e o Pássaro já se conheciam há certo tempo, mas foi a convivência com o Menino nessas tardes e noites onde eles se reuniam para falar da vida que realmente os aproximou. O Pássaro merece em um outro dia, uma história só para ele; hoje, vou me abster em contar-lhes que seu maior medo era ser trancado em uma gaiola. Seu lugar era o céu azul, plainando entre as nuvens e pousando aqui e ali.

O Menino, a Flor e o Pássaro se tornaram bons amigos, os fins de tarde eram regados a conversas, lágrimas e principalmente boas risadas, a vida era perfeita naqueles singelos momento em que compartilhavam; o Vento, vez ou outra dava o ar de sua graça, mas ele se dava melhor com cada um deles em particular, sendo assim, ele simplesmente seguia seu rumo.

Houve uma vez que até merece ser compartilhada aqui pois conta como o Jardineiro surgiu na história; o Vento soprou um pouco mais forte, e a Flor, definhou em sua fragilidade. Suas pétalas murcharam, sua folhas caíram e seus espinhos, bom, espinhos não arranham o Vento, então foram dias bem difíceis para ela. Durante esses dias, o Menino não se afastou em nenhum momento, pelo contrario, ele se aproximou ainda mais. Ele cuidou como pode e trouxe o Jardineiro para ajudar com a cura. O Jardineiro alias, é uma figura interessante nesta história. Ele convive neste mesmo jardim e a sua maneira compreende cada elemento citado aqui: o Pássaro e sua necessidade de vôo livre, o Vento e sua desarmonia de brisa e vendaval; conhece a Flor e sabe como ela pode ser afetada com um vento mais forte ou uma chuva que molhe demais a terra na qual se sustenta; e finalmente entende o Menino, pelo simples fato de que antes de ser um artesão da terra , ele já foi um, e é tão humano como ele.

O Jardineiro e o Menino são ao mesmo tempo tão semelhantes e tão distintos… O primeiro cuida das flores, conversa com os pássaros e tira sarro da vida conversando com o Vento, não teme os espinhos porque já teve alguns arrancados de sua própria carne. Já perdeu algumas flores quando não importava o que fizesse, não cabia a ele salva-las ou não. Isso o entristeceu é claro, toda dor e perda que se tem deixam feridas, o que muda é a maneira que cada um encara; o Menino do Coração de Lata por sua vez, tinha medo de lidar com tais coisas. Ao menor sinal de que estava perdendo algo ou alguém, ele se afastava primeiro, se fechava para tudo e sorria, não porque não se importava, mas porque adquiriu a capacidade de se desligar e seguir. A Flor e o Jardineiro se preocupavam com isso, mas não cabia a eles querer “mudar” o amigo que tinham, eles simplesmente estavam ali, para ampará-lo se necessário fosse.

É isso que os amigos fazem, eles não mudam ninguém porque qualquer transformação que não venha de dentro é vã, mas são a rocha que se precisa como alicerce para se reconstruir, toda mão de obra da transformação porém, há de ser do próprio Menino.

Há quem diga que o problema deste Menino tenha sido não ter experimentado o amor de verdade. Ele ouviu falar, achou que sentiu, observou acontecendo nas músicas e nos filmes, mas nunca realmente provou em sua própria vida. Se enfurecia porque era algo que queria pra si, mas não sabia bem como ou por onde começar… Poderia um menino com um coração de lata amar alguém de verdade?

As relações humanas são assim,como um grande penhasco que você não conhece a profundidade e não sabe muito bem o que vai encontrar lá no fundo, tudo é escuro, dúbio e sem garantias. Uma vez que se decide abrir o coração para alguém, você pula, em queda livre e sem volta; algumas vezes encontra-se um amontoado de pedras pontiagudas e espinhos lá embaixo que te destroem e fazem mais mal do que poderíamos descrever aqui; outras vezes encontra-se um vasto campo de flores perfumadas, coloridas e delicadas, elas acolhem sua queda de forma mansa e suave e nos abraçam deixando um vislumbre do que é o paraíso aqui na terra. Nunca se sabe o que vai encontrar quando se atira deste penhasco, tristeza e alegria são possibilidades que existem na mesma proporção.

A Flor e o Jardineiro pularam deste penhasco, deram a sorte de encontrar um maravilhoso campo florido tão suave e acolhedor quanto se poderia desejar. O Pássaro, devido a sua capacidade de voar, não pula, mas vem descendo o penhasco suavemente cada vez mais fundo rumo ao mesmo destino que os dois primeiros. O Vento, cumpre seu papel e segue seu curso. O Menino de Coração de Lata ainda não pulou, mas seus amigos e aguardam lá no fundo de braços bem abertos. Um dia esse Menino vai descobrir que ele não tem um coração de lata, seu coração é de ouro; e então ele estará pronto.

Sobre Harry Potter, Paris e Sorvete de Flocos.

Posso falar? Me cansei de ouvir as pessoas dizendo que amam ler. Poso te contar uma coisa? Não você não gosta de ler se você baseia sua paixão em Harry Potter ou Crepúsculo. E calma ae, eu gosto muito de ambas as séries, isso não é uma critica as modinhas que arrebatam leitores pelo mundo. Só acho que basear seu gosto em uma coisa pelo óbvio não torna ele verdadeiro. Se viajar para Paris e colocar uma foto da torre Eiffel na sala te faz feliz, ótimo, mas eu sou do tipo que preferem as outras histórias. Não que eu dispensasse tirar uma foto com o cartão postal da cidade das luzes, mas eu acho que me divertiria muito mais contando sobre um lugarzinho aconchegante que eu parei para tomar café em um dia frio, sobre minha experiência de dançar na chuva numa pracinha no meio do nada ou ainda olhar as estrelas sentada as margens do rio Sena. A foto na torre Eiffel certamente estaria na estante da minha sala ou estampando a mesa de meu escritório, mas quando me perguntassem o que foi que eu mais gostei em Paris, eu duvido muito que minha resposta fosse a mesma da foto. Harry Potter para mim é a Torre Eiffel. Mas Harry Potter é ótimo! Sim, a torre Eiffel também possui uma beleza indescritível. Mas Harry Potter é mágico, é diferente, é a obra-prima de uma grande autora. Pois é, a torre Eiffel também é descrita como um “milagre arquitetônico” e eu tenho bastante certeza de que seu idealizador é bem orgulhoso de sua obra. Mas Harry Potter já bateu vários recordes, alguns dele mesmo até! Você sabia que a torre Eiffel em certo ponto da história já foi a maior estrutura construída do mundo? Como eu disse, não me leve a mal, isso não é uma crítica, é apenas um desabafo. Gostar de ler pra mim vai além dos best sellers, vai além da modinha e muito, muito além de livros que todo mundo gosta. Aliás, eu até gosto de quando tenho uma opinião divergente sobre um livro que todo mundo gostou, ou não gostou. Para mim, esse cara sim escreveu bem. Afinal, convenhamos, é impossível agradar a todo mundo! Se você vê um livro onde se ouve apenas boas coisas sobre ele, para mim significa que ele passou em branco, ele vai morrer na estante e hora ou outra será substituído no pensamento por esse ou aquele outro melhor que este e ponto. Os bons livros, geram argumentos, geram debate, geram intriga. E vou te contar um segredo: eu não gosto de Paulo Coelho, mas o admiro. Admiro pela repulsa que ele conseguiu criar em mim com relação aos seus livros. Ele certamente não passa desapercebido pelo meu desgosto ao ver um livro dele em destaque, e por isso eu o admiro. Antes assim do que ser morno e desnecessário. O que eu gosto mesmo são os livros em forma de café na esquina e noites estreladas as margens do Sena. Você chegou até aqui criticando os clássicos que te obrigaram a ler na escola? Ótimo, então volte, releia-os, entenda porque te obrigaram a ler e depois retomamos nossa conversa. O problema do Brasil é que algumas coisas aqui são simplesmente ditas, dadas como lei e não te explicam bem o motivo. Já se perguntou alguma vez porque as escolas não adotam de uma vez Harry Potter como leitura obrigatória já que todo mundo lê e até “pega um gosto” pela leitura depois dele? A explicação é bem simples e é outra pergunta: já se perguntou porque sua mãe te apresenta aos vegetais antes de te apresentar ao sorvete de flocos? Qual é realmente importante pra você? Machado, Azevedo, Alencar… estes são todos vegetais. Os bons livros, são aqueles que as palavras não se aquietam depois de lidas, que não te deixam dormir por palpitarem no seu peito, que te fazem ter crítica, opinião e que te prendem aos personagens de tal forma que falar deles é como falar de um velho amigo. Gosta de ler? Então recite seu poema favorito de Drummond. É apaixonado por livros? Então me mostre na sua estante o Dom Casmurro e o Primo Basílio guardados com o mesmo cuidado que você tem para os seus livros de vampiro de calça jeans. Eu não estou pedindo pra ninguém gostar de clássicos nem de poesia, mas estou farta de ouvir pessoas idolatrando livros de forma vã, sem sentido algum, pelo simples prazer de exibir a Torre Eiffel na estante da sala… Se você ama os livros, ame-os em sua essência. PS: eu realmente gosto de Harry Potter, quero muito conhecer Paris um dia e também sou fã de sorvete de flocos.

E eu dedico esse texto a Bianca Briones e ao Dhyan Shanasa, porque mesmo sem saberem, as palavras deles borbulharam na minha alma ao ponto de escorrerem pelos meus dedos.