Sobre Harry Potter, Paris e Sorvete de Flocos.

Posso falar? Me cansei de ouvir as pessoas dizendo que amam ler. Poso te contar uma coisa? Não você não gosta de ler se você baseia sua paixão em Harry Potter ou Crepúsculo. E calma ae, eu gosto muito de ambas as séries, isso não é uma critica as modinhas que arrebatam leitores pelo mundo. Só acho que basear seu gosto em uma coisa pelo óbvio não torna ele verdadeiro. Se viajar para Paris e colocar uma foto da torre Eiffel na sala te faz feliz, ótimo, mas eu sou do tipo que preferem as outras histórias. Não que eu dispensasse tirar uma foto com o cartão postal da cidade das luzes, mas eu acho que me divertiria muito mais contando sobre um lugarzinho aconchegante que eu parei para tomar café em um dia frio, sobre minha experiência de dançar na chuva numa pracinha no meio do nada ou ainda olhar as estrelas sentada as margens do rio Sena. A foto na torre Eiffel certamente estaria na estante da minha sala ou estampando a mesa de meu escritório, mas quando me perguntassem o que foi que eu mais gostei em Paris, eu duvido muito que minha resposta fosse a mesma da foto. Harry Potter para mim é a Torre Eiffel. Mas Harry Potter é ótimo! Sim, a torre Eiffel também possui uma beleza indescritível. Mas Harry Potter é mágico, é diferente, é a obra-prima de uma grande autora. Pois é, a torre Eiffel também é descrita como um “milagre arquitetônico” e eu tenho bastante certeza de que seu idealizador é bem orgulhoso de sua obra. Mas Harry Potter já bateu vários recordes, alguns dele mesmo até! Você sabia que a torre Eiffel em certo ponto da história já foi a maior estrutura construída do mundo? Como eu disse, não me leve a mal, isso não é uma crítica, é apenas um desabafo. Gostar de ler pra mim vai além dos best sellers, vai além da modinha e muito, muito além de livros que todo mundo gosta. Aliás, eu até gosto de quando tenho uma opinião divergente sobre um livro que todo mundo gostou, ou não gostou. Para mim, esse cara sim escreveu bem. Afinal, convenhamos, é impossível agradar a todo mundo! Se você vê um livro onde se ouve apenas boas coisas sobre ele, para mim significa que ele passou em branco, ele vai morrer na estante e hora ou outra será substituído no pensamento por esse ou aquele outro melhor que este e ponto. Os bons livros, geram argumentos, geram debate, geram intriga. E vou te contar um segredo: eu não gosto de Paulo Coelho, mas o admiro. Admiro pela repulsa que ele conseguiu criar em mim com relação aos seus livros. Ele certamente não passa desapercebido pelo meu desgosto ao ver um livro dele em destaque, e por isso eu o admiro. Antes assim do que ser morno e desnecessário. O que eu gosto mesmo são os livros em forma de café na esquina e noites estreladas as margens do Sena. Você chegou até aqui criticando os clássicos que te obrigaram a ler na escola? Ótimo, então volte, releia-os, entenda porque te obrigaram a ler e depois retomamos nossa conversa. O problema do Brasil é que algumas coisas aqui são simplesmente ditas, dadas como lei e não te explicam bem o motivo. Já se perguntou alguma vez porque as escolas não adotam de uma vez Harry Potter como leitura obrigatória já que todo mundo lê e até “pega um gosto” pela leitura depois dele? A explicação é bem simples e é outra pergunta: já se perguntou porque sua mãe te apresenta aos vegetais antes de te apresentar ao sorvete de flocos? Qual é realmente importante pra você? Machado, Azevedo, Alencar… estes são todos vegetais. Os bons livros, são aqueles que as palavras não se aquietam depois de lidas, que não te deixam dormir por palpitarem no seu peito, que te fazem ter crítica, opinião e que te prendem aos personagens de tal forma que falar deles é como falar de um velho amigo. Gosta de ler? Então recite seu poema favorito de Drummond. É apaixonado por livros? Então me mostre na sua estante o Dom Casmurro e o Primo Basílio guardados com o mesmo cuidado que você tem para os seus livros de vampiro de calça jeans. Eu não estou pedindo pra ninguém gostar de clássicos nem de poesia, mas estou farta de ouvir pessoas idolatrando livros de forma vã, sem sentido algum, pelo simples prazer de exibir a Torre Eiffel na estante da sala… Se você ama os livros, ame-os em sua essência. PS: eu realmente gosto de Harry Potter, quero muito conhecer Paris um dia e também sou fã de sorvete de flocos.

E eu dedico esse texto a Bianca Briones e ao Dhyan Shanasa, porque mesmo sem saberem, as palavras deles borbulharam na minha alma ao ponto de escorrerem pelos meus dedos.

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