O Jardim

Essa história que vos apresento agora trata sobre alguns personagens bem singulares: o Vento, o Pássaro, o Jardineiro, a Flor e o Menino que tinha o coração de lata. O Menino em questão, aos que os observam despretensiosamente, descreviam-no como alguém muito feliz que sorria o tempo todo e espalhava alegria por onde fosse, era intenso em tudo que fazia e orgulhava-se de seu trabalho, seus pais, seus amigos. Gabava-se por aí de sua valentia mas tinha um grande medo em seu coração: o de não conseguir aproximar-se realmente de alguém. Quando acontecia, ficava muito feliz, mas antes que este alguém fosse embora (ou ele simplesmente achasse que fosse), ele se fechava e saía primeiro…

É provável que seja esse o motivo pelo qual o Menino se dava tão bem com o Vento; afinal, sabem bem como é o Vento, bom… o Vento é livre. Ele corre pelos quatro cantos do mundo mas não tem morada fixa, faz sua dança de sussurros e não florearemos dizendo que muitos gostavam dele, pois ele pode ser forte, cortante, frio e seco quando assim lhe convém, mas é também bom e necessário para aqueles que sabem apreciá-lo; uma dentre estes poucos, a Flor. Vejam bem, não cabe aqui dizer se ela era feliz ou triste, se era da família das rosas ou margaridas; na verdade, pra quem vê de fora, uma flor é só uma flor, é frágil, delicada, perfumada e bela; porém, se você permitir-se aproximar um pouco mais, vai perceber que ela tem seus espinhos, muitas de suas pétalas já caíram e outras muitas vão cair, mas nosso foco hoje não é falar de flores.

Em um belo dia, o Vento apresentou a Flor ao Menino de Coração de Lata e talvez ele não tivesse idéia do que estava fazendo (ou talvez sim, quem sabe?), poderia ser uma brincadeira de um dia onde lhe fora permitido ser apenas brisa e ele queria algo diferente, mas foi assim que o Menino de Coração de Lata entrou na vida da Flor. Seria tolice dizer que os dias dela mudaram, ela era uma flor e por mais que o mundo girasse ao seu redor, permanecia ali, em seu singelo jardim a contemplar a vida. A diferença destes mesmos dias, é que no fim da tarde, este Menino agora se sentava ali com ela. Às vezes, nem conversavam, só o silencio lhes bastava, a companhia um do outro era suficiente. A Flor era só sorrisos e seu coração transbordava em gratidão por ter em sua vida alguém tão especial; não demorou muito também para que àquelas tardes serenas fosse somada a companhia de um Pássaro.

A Flor e o Pássaro já se conheciam há certo tempo, mas foi a convivência com o Menino nessas tardes e noites onde eles se reuniam para falar da vida que realmente os aproximou. O Pássaro merece em um outro dia, uma história só para ele; hoje, vou me abster em contar-lhes que seu maior medo era ser trancado em uma gaiola. Seu lugar era o céu azul, plainando entre as nuvens e pousando aqui e ali.

O Menino, a Flor e o Pássaro se tornaram bons amigos, os fins de tarde eram regados a conversas, lágrimas e principalmente boas risadas, a vida era perfeita naqueles singelos momento em que compartilhavam; o Vento, vez ou outra dava o ar de sua graça, mas ele se dava melhor com cada um deles em particular, sendo assim, ele simplesmente seguia seu rumo.

Houve uma vez que até merece ser compartilhada aqui pois conta como o Jardineiro surgiu na história; o Vento soprou um pouco mais forte, e a Flor, definhou em sua fragilidade. Suas pétalas murcharam, sua folhas caíram e seus espinhos, bom, espinhos não arranham o Vento, então foram dias bem difíceis para ela. Durante esses dias, o Menino não se afastou em nenhum momento, pelo contrario, ele se aproximou ainda mais. Ele cuidou como pode e trouxe o Jardineiro para ajudar com a cura. O Jardineiro alias, é uma figura interessante nesta história. Ele convive neste mesmo jardim e a sua maneira compreende cada elemento citado aqui: o Pássaro e sua necessidade de vôo livre, o Vento e sua desarmonia de brisa e vendaval; conhece a Flor e sabe como ela pode ser afetada com um vento mais forte ou uma chuva que molhe demais a terra na qual se sustenta; e finalmente entende o Menino, pelo simples fato de que antes de ser um artesão da terra , ele já foi um, e é tão humano como ele.

O Jardineiro e o Menino são ao mesmo tempo tão semelhantes e tão distintos… O primeiro cuida das flores, conversa com os pássaros e tira sarro da vida conversando com o Vento, não teme os espinhos porque já teve alguns arrancados de sua própria carne. Já perdeu algumas flores quando não importava o que fizesse, não cabia a ele salva-las ou não. Isso o entristeceu é claro, toda dor e perda que se tem deixam feridas, o que muda é a maneira que cada um encara; o Menino do Coração de Lata por sua vez, tinha medo de lidar com tais coisas. Ao menor sinal de que estava perdendo algo ou alguém, ele se afastava primeiro, se fechava para tudo e sorria, não porque não se importava, mas porque adquiriu a capacidade de se desligar e seguir. A Flor e o Jardineiro se preocupavam com isso, mas não cabia a eles querer “mudar” o amigo que tinham, eles simplesmente estavam ali, para ampará-lo se necessário fosse.

É isso que os amigos fazem, eles não mudam ninguém porque qualquer transformação que não venha de dentro é vã, mas são a rocha que se precisa como alicerce para se reconstruir, toda mão de obra da transformação porém, há de ser do próprio Menino.

Há quem diga que o problema deste Menino tenha sido não ter experimentado o amor de verdade. Ele ouviu falar, achou que sentiu, observou acontecendo nas músicas e nos filmes, mas nunca realmente provou em sua própria vida. Se enfurecia porque era algo que queria pra si, mas não sabia bem como ou por onde começar… Poderia um menino com um coração de lata amar alguém de verdade?

As relações humanas são assim,como um grande penhasco que você não conhece a profundidade e não sabe muito bem o que vai encontrar lá no fundo, tudo é escuro, dúbio e sem garantias. Uma vez que se decide abrir o coração para alguém, você pula, em queda livre e sem volta; algumas vezes encontra-se um amontoado de pedras pontiagudas e espinhos lá embaixo que te destroem e fazem mais mal do que poderíamos descrever aqui; outras vezes encontra-se um vasto campo de flores perfumadas, coloridas e delicadas, elas acolhem sua queda de forma mansa e suave e nos abraçam deixando um vislumbre do que é o paraíso aqui na terra. Nunca se sabe o que vai encontrar quando se atira deste penhasco, tristeza e alegria são possibilidades que existem na mesma proporção.

A Flor e o Jardineiro pularam deste penhasco, deram a sorte de encontrar um maravilhoso campo florido tão suave e acolhedor quanto se poderia desejar. O Pássaro, devido a sua capacidade de voar, não pula, mas vem descendo o penhasco suavemente cada vez mais fundo rumo ao mesmo destino que os dois primeiros. O Vento, cumpre seu papel e segue seu curso. O Menino de Coração de Lata ainda não pulou, mas seus amigos e aguardam lá no fundo de braços bem abertos. Um dia esse Menino vai descobrir que ele não tem um coração de lata, seu coração é de ouro; e então ele estará pronto.

5 thoughts on “O Jardim”

  1. Belo ao ponto que o coração alcança. Espero que a saga dê bons frutos. Aliás, já enganaram o vento uma pá de vezes, tô sabendo.

    #rialto

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