O Jardim – A História do Vento

Esta é uma daquelas histórias difíceis de serem contadas por faltar palavras para escreve-la. Não por ser escassa a morfologia da gramática ou desta Língua, mas por ela se passar, em sua maior parte, em Entrelinhas. Entrelinhas… Esta é a linguagem do Vento.

Narramos aqui a história de uma flor que plantada em um amplo jardim e cercada por tantas outras plantas não era nem um pouco extraordinária, pelo contrário, fazia de tudo para levar seus dias sem chamar muita atenção e se sentia feliz a sua maneira com o simples fato de, dia após dia, receber sua dose de sol e banhar-se com a água da chuva.

Sua vida não era um “mar de rosas” como se pode imaginar: se lhe perguntassem sobre novidades, ela teria pouco para lhes dizer; na verdade via o Jardim todo se desenvolver e crescer mas não fazia questão alguma de fazer parte daquilo.

Em um belo dia enquanto ela se distraía com o canto dos pássaros, observou que algumas árvores dançavam uma valsa de sussurros… Ora, não demorou para que também provasse do acalanto. Sentiu um arrepio lhe tomar o corpo todo, e quando deu por si estava na mesma dança que, há poucos instantes, só observava.
– Quem é o responsável por isto? – perguntou ela.

Então, do mesmo jeito que os sussurros tinham surgido sem aviso prévio, fez-se silêncio.

– Vejo que tu não me conheces – disse uma voz fria -, ou talvez conheças, mas não sabes o meu nome. Chamam-me Vento, mas tu podes dar-me o nome que quiseres. Um nome é só um nome; eu mesmo tenho vários, assim como são vastos os movimentos de minha dança que se espalha por onde passo. Sou brisa e vendaval, tudo depende da parte que lhe cabe em meu ser.

A Flor, desacostumada com a libertinagem que exalava de seu novo amigo, viu-se encantada. E, vejam bem, não é difícil encantar uma Flor, na verdade elas possuem um sorriso fácil e sincero para a maior parte das pessoas que se fazem merecedoras de tal prenda. Mas de alguma forma, ele era diferente… O tempo passou e o Vento se tornou muito querido para nossa pequena Flor. Não que com ele a Flor falasse sobre suas pétalas ou perfume; na verdade, eles passavam as horas falando sobre trivialidades e rindo da ironia dos dias. A Flor, em sua inocência e insensatez, às vezes não compreendia algumas coisas sobre o Vento, mas eles pertenciam a mundos diferentes e não cabia a ela entendê-las, e isso só o Tempo poderia mostrar. Já o Vento ria da meninice da Flor e seguia seu curso travesso, dançando aqui e ali como lhe convinha.

Essa é a história da Flor e o Vento. Não poderíamos falar mais que isso, pois como o prelúdio dessa história diz, a maior parte dos acontecimentos não se faz explícita a olhos desatentos, tampouco afirmamos que seja um romance ou uma história sobre amizade – o primeiro por não caber aqui e o segundo por certamente os leitores encontrarem por aí histórias mais bonitas e convencionais que sobreporiam esta em muitos sentidos. A história da Flor e o Vento acontece em parte pelo que se diz e em parte pelo que se vive. Contudo, eis a história que a Flor conta sobre o seu Vento; e para ela basta que seja assim, pois é rara como uma rosa bicolor, como ele mesmo, o Vento, uma vez lhe contou e descreveu existir…

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