O Jardim – A poesia da terra

A este que vos apresento agora, chamamos Jardineiro. Ora ou outra podemos até chama-lo de homem ou menino, mas seria tolice. Nosso Jardineiro já foi menino, mas o lidar com a terra e a sabedoria que adquiriu por te-la entre os dedos, deram-no um coração grande; bem maior que este Jardim portanto fica difícil lhes descrever ou tentar mensurar. Não vamos também coloca-lo como homem, bem sabes que por aí existem muitos que se deixaram crescer e se desinteressaram das coisas mais importantes do mundo como a beleza do arco-iris e a suavidade do orvalho; nosso Jardineiro muito preza por todas essas coisas então aqui ele será apenas isso, o Jardineiro, artesão da terra, homem e menino na proporção que lhe cabem em sua plenitude.

Durante muito tempo, antes de encontrar o conforto deste Jardim, ele vagou sozinho. Nem tentaremos descrever seus espinhos porque ninguém senão ele mesmo é capaz de entender a profundidade que eles lhe feriram – ou ferem – porém sabemos que para seguir em frente, mais cedo ou mais tarde ele precisaria travar um duelo com cada um deles; arranca-los da carne ainda que isso lhe custe um pedaço de si mesmo. Um certo dia, por travessura do Destino – ou chame você como quiser explicar estes acontecimentos que fogem ao nosso entendimento – o Jardineiro se encontrou aqui. Não vamos dizer que ele tenha encontrado o Jardim porque este não é um desses lugares que você adentra por um portão de ferro quando bem entende, ele se esconde aos que apressados passam preocupados demais com seus afazeres do dia.

Quem o encontrou primeiro certamente foi o Vento em uma de suas travessuras pelo mundo afora. É difícil dizer onde ou como pois bem sabes que ele não tem rumo e o curso e sua dança é livre, portanto estar aqui ou ali não faz muita diferença. Ainda cedo, quando o sol se espreguiça entre as colinas, nosso bom homem já conversa com o Vento e é bonito para quem vê de fora a relação deles. Eles não são amigos se por amizade você entende este padrão ditado por aí afora. O Vento não poupa nem mesmo o Jardineiro quando precisa ser vendaval e sopra toda fúria de sua essência se necessário for para que ele desperte. O sono da dualidade, do julgamento. O sono que todos estamos sujeitos, mas que apenas alguns se dão conta da sua existência. E o Jardineiro então acorda de si mesmo, do sono que nem ele sabia que dormia.

Folha por folha, raiz, caule, espinhos; ele tece seu Jardim com uma destreza ímpar. A própria Flor se deleita nesta relação… Engraçado é dizer que ele chegou a pensar que a conhecia. Talvez ele entenda de flores e saiba o tipo de solo que lhes agrada, conheça a quantidade de água que necessitam e os nutrientes que lhe fazem bem para que as pétalas estejam sempre vistosas e belas, mas conhece-la, nem mesmo ela conhece. Mas ele a aprendeu. O coração dele e da Flor em alguns momentos batem no mesmo compasso e ainda que lhe faltem palavras as vezes, ele enxerga nos mínimos detalhes a realidade da Pequenina. Tão frágil e tão forte… As lágrimas do Jardineiro, nada mais são do que o orvalho que transborda da Flor, eis a poesia da terra.

Inevitavelmente falamos aqui também do Pássaro. Não apenas por ele morar no Jardim, na verdade mais do que ninguém o Pássaro e o Jardineiro se entendem. Mais que isso, eles dividem um ser, separado em dois corpos por mera conveniência. Ele forte e sofrido pelas lições da vida, o pássaro pequeno e frágil na sutileza de seu mínimos detalhes. Sempre arisco pelas gaiolas que já lhe roubaram da imensidão do céu, nunca deixou-se levar por uma relação de verdade; qualquer aproximação mais terna lhe era uma ameaça e o Jardineiro sabia disso. Foi preciso cuidado e dedicação para que a cada dia ele se permitisse chegar um pouquinho mais perto, e hoje o Pássaro pousa sobre seu ombro e entre cantos e risos a melodia da vida soa em sua forma mais bela.

O Jardineiro talvez seja um menino que cresceu depressa demais. Não deixou para trás o coração e a inocência da infância mas aprendeu com dedicação cada lição que a vida lhe proporcionou. E continua aprendendo; boa parte do que hoje lhe atribuímos como sabedoria é na verdade um pouco de todas essas relações que ele tomou para si. O Vento, a Flor, o Pássaro… Tantas outras na verdade mas que não cabem aqui. O Jardineiro é um desses bons amigos que carregamos junto ao peito, com a certeza de que aconteça o que acontecer, mesmo em silêncio, ele sempre estará lá …

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