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Trava-língua: Como escrever livros que se passam no exterior
Wednesday 13/06/2012 às 08:00 3938 Views Arquivado em: Literatura e Blá Blá Blá

Olá, queridos Bookaholics! Estou de volta aqui na coluna “Literatura e Blá blá blá” para conversarmos sobre um tema que assombra os autores, e também editores e indiretamente revisores e tradutores. E assombra essa gente toda pra que não assombre os leitores quando chegar a vez de vocês lerem o que escrevemos, editamos, traduzimos e revisamos!

Bom, é muito comum encontrarmos no Brasil livros traduzidos de outros idiomas, principalmente do inglês, e geralmente, todo o texto é traduzido, sem muito problema, mantendo-se quase sempre o nome dos personagens originais (Edward e Bella, por exemplo) ou não (quem não lembra da pendenga bíblica do James/Thiago de Harry Potter?). Já os nomes das cidades são traduzidos sem muita piedade (London vira Londres com a mesma facilidade que New York vira Nova Iorque). Mas e os diálogos?!

Quando o livro é todo escrito numa língua e traduzido para a outra completamente, fica como um filme dublado. Parte-se do princípio que o leitor desconhece o idioma original da obra, e se o leitor não estiver incomodado com essa suposição, ótimo. Mas o grande problema surge quando o livro é escrito numa língua mas se passa no país de outra. O cinema tem soluções criativas e polêmicas. No maravilhoso “The Hunt for the Red October” (“A Caçada ao Outubro Vermelho”), a tripulação do submarino soviético, que vinha falando russo até então, começa, do nada, a falar inglês (ou português, na versão dublada). E azar o seu se achou isso bizarro. Não li o romance que originou o filme sobre a Guerra Fria ainda, mas quando eu for ler, digo para vocês qual a solução que o autor Tom Clancy deu para o imbróglio. Afinal, na Literatura não temos legendas, dublagens e um monte de outros recursos dos quais as artes audio-visuais dispõem.

No “Todas as estrelas do céu” eu não tive esse problema, pois a história se passa toda no Brasil com brasileiros. Nos meus dois roteiros de longa (“Geribá” e “Mil Mares“) tampouco, pois em roteiro você escreve a fala na língua estrangeira e coloca as legendas no final da cena. Foi em 2007, quando comecei a escrever “Três Céus”, que pela primeira vez tive que enfrentar a questão de frente. Logo no começo do livro, Eva, uma estudante francesa que faz intercâmbio na Argentina, aparece pra mexer com a cabeça do nosso primeiro protagonista, Lucas Luchesi. E eles conversam em… espanhol! A questão é: como passar o diálogo da forma mais verossímil possível de maneira que o leitor que não fala espanhol não fique boiando?! Nós, que falamos português, temos a facilidade de que o espanhol é uma língua prima do nosso idioma, então, em boa parte das frases, dá pra entender o que é dito. O idioma aparece mais vezes durante o livro, e em geral é seguido de uma frase ou ação em português que evidencia o que o trecho em língua estrangeira significou. Além de ficar mais real, serve de incentivo para quem quer aprender o idioma de Cervantes.
Já no livro que estou terminando de escrever, “Alba”, é que a coisa complica de verdade. No que será minha estreia em um romance em primeira pessoa, nosso protagonista brasileiro vai para a Escócia se suicidar – calma, quando vocês forem ler, tudo fará sentido: minha beta reader Priscila que o diga… – e praticamente tudo à sua volta acontece e é falado em inglês. Como passar isso para o leitor leigo na língua de Shakespeare? Quando o livro sair vocês verão a solução que encontrei. Uma delas, bem semelhante ao que estou vivendo aqui nos Estados Unidos, é nosso protagonista estar cercado de gente que fala português (na Escócia é mais difícil encontrá-los, mas só no meu condomínio aqui há uma dúzia de brasileiros). E vocês, o que preferem? A solução à la “A menina que roubava livros”, mesclando as línguas nos diálogos? Notas de rodapé com legendas? Um beijo enorme e até a próximo coluna!




Sobre o autor do post:

Enderson Rafael nasceu em Florianópolis, em 1980. Escreveu seu primeiro romance, aos 19 anos. Formou-se bacharel em Comunicação (Publicidade e Propaganda) pela ESPM-Rio, escola que em 2006 apoiou a publicação de seu segundo livro "Propaganda e Marketing para vestibulandos, calouros, curiosos e simpatizantes". Neste meio tempo, escreveu dois roteiros de longa metragem para cinema, "Geribá" e "Mil Mares". Em 2010, lançou seu primeiro romance, "Todas as estrelas do céu" e agora trabalha como comissário de voo, profissão na qual já soma 5 mil horas de voo e que inspirou seu segundo romance, a ser lançado em 2012, "Três Céus" pela editora Gutenberg.
E-mail: endeblog@gmail.com



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